domingo, 20 de maio de 2018

Ignorância das femininas

Ultimamente, existe no meio evangélico um grupo de líderes que têm insistido em usar como uma correção de comportamento e ideias, a palavra feminina em contraponto a palavra feminista.
Frases do tipo:" Eu não sou feminista, sou feminina", tem sido dita com uma paixão invejável.
Mas há uma ignorância de base. Além de uma cooptação discursiva reacionária, que é uma discussão ainda mais complicada de se ter. A ignorância está em acreditar que para ser feminista abdica-se de ser feminina. Que tolice é essa?como se não houvesse feministas casadas ou em vias de, mães, que não trabalham, etc.
Um grupo inexpressivo de mulheres não desejam se casar ou não desejam a maternidade. Muitas sequer discutem as questões ligadas aos feminismos.
Ser feminista é reconhecer que há uma desigualdade estrutural e maléfica na sociedade, que atinge o sexo feminino de forma específica. Desigualdade que exclui, mata, oprime, interdita.
Não deixei de ser mulher e feminina por pensar as relações pessoais e sociais por essa lente feminista.
Se seguirmos as migalhas de onde saiu essa argumentação, podemos ficar surpresos com a sua origem branca, racista e fundamentalista.
Claro, isso será um problema para quem acredita que o racismo, o sexismo e o fundamentalismo religioso evangélico seja algo ruim.


sábado, 19 de maio de 2018

poder para servir



O poder é um negócio complicado. Mal usado ou usado como um fim em si mesmo é um malefício para qualquer relação. O poder não é algo natural. Ele é sempre dado por alguém ou usurpado de alguém. Daí a enorme responsabilidade de quem o detém ou de quem o deseja.
No casamento dos poderosos, uma lição aos que detém o poder. Inclusive, o religioso.
 É maior o poder quando mais simples se é. É maior o poder quando respeitamos a quem nos confere essa honra. É maior o poder quando usado para dividir os benefícios.É maior o poder quando é usado para servir o outro.
De frente para as câmeras e fora delas.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

98 assembleia

Texto publicado no grupo "Nós Batistas"

Caros colegas,


Somos especiais para Deus, como ouvi na manhã do último dia de reunião da Ordem. Mesmo que pareça, em alguns momentos, haver alguns mais especiais do que outros. Fomos instados a ter fé na providência divina e, de certa forma, explicitar essa providência através do nosso interesse genuíno pelo outro. Foi bom ouvir essa parte.

Não há , me parece, outra forma mais a nosso alcance de ver Deus do que no rosto do irmão, à luz das cartas joaninas e à luz  também das experiências transformadas em testemunho, como as narradas pelo pr. Miqueias.

Oxalá, marcássemos essa teologia amorosa nas tábuas de carne dos nossos corações. Ao invés de insistir em selecionar quem se encaixa na posição de alvo da providência ou para quem seremos irmão ou a quem chamaremos de irmão e companheiro de ministério.

Olhando para os pastores e pastora eleitos, desejei que a consciência da mutualidade, do cuidado com  quem igualmente serve a Deus, o reconhecimento, pregados  pelo pr. Miqueias, fosse uma voz contínua a nortear o trato, as decisões, a visão institucional e a diversidade do ministério batista.

Somos especiais, mas alguns parecem mais especiais do que outros. Realizamos o mesmo serviço, mas alguns são de Deus e outros sabem como Jesus, ao ser interrogado pelos doutores da Lei, que não importa a resposta dada a com que autoridade realiza a obra, será execrado.

O ministério pastoral batista da CBB está para além da Ordem, como todos os batistas sabem, mas não seria extraordinário e divino que ela congregasse todos os pastores e pastoras que servem nas igrejas batistas?

Para isso, no entanto, para viver o Reino de Deus, precisaríamos eliminar nosso calcanhar de Aquiles, a ideia de que há alguns mais especiais do que outros.


No fraterno Cristo,

Pra. Silvia Nogueira

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Poços sem fundos ou poços de vida?

Os eventos não começam no momento em que se iniciam. Eventos têm bastidores, têm o antes, a preparação, as intenções.
Eventos podem ser, então, resultados de processos tranquilos, turbulentos, transparentes ou obscuros, promotores de crescimento ou retrocesso ou ainda uma infinidade de outras possibilidades, como a
proposição do título.
Estamos em Poços de Caldas e ainda não sabemos se paramos aqui, como resultado de um processo gestado nos gabinetes, comissões, reuniões institucionais, para testemunhar o fundo do poço ou o poço da vida.
Expectamos!

terça-feira, 10 de abril de 2018

Reforma para o Reino ou reforma para poucos, em preparação para a 98ª assembleia da CBB , parte 2


Não é um bom momento para falar sobre política no Brasil. Todos estamos, aparentemente, com os nervos à flor da pele, defendendo bandeiras de lá e de cá, aproveitando ou não oportunidades para ser a voz da razão e/ou da espiritualidade em um cenário de caos produzido e controlado. Contudo, é possível perceber, como diria Edgar Morin, que pela primeira vez na história temos um destino em comum, como humanidade. Estamos conectados em tudo, em especial, nos aspectos do pensamento e da cultura. Somos uma sociedade conectada. O atual cenário político-social brasileiro afeta todas as dimensões da vida individual e coletiva de alguma forma. Por mais que algumas vezes tentemos negar que o conteúdo do nosso discurso tem a marca dessas conexões, elas atravessam nossas falas e posturas diante dos fatos.
O quanto estamos, como religiosos, conscientes dessa realidade de que tudo está conectado e nos afecta, é difícil dizer. Mas colhemos os resultados desse fenômeno a curto, médio ou longo prazo em seus desdobramentos. Uma decisão aparentemente “inocente” pode ter um efeito cascata que vai do coletivo para o individual e do público para o privado. Decisões que soam bem e razoáveis à primeira vista podem se transformar em um canto das sereias, ou dos sereios, doce no início, mas, inevitavelmente, fatal. Daí a natureza da grande responsabilidade de quem toma decisões para o coletivo. Apesar de um conhecimento limitado ou de uma ignorância voluntária da realidade, há resultados que dirão respeito ao nosso cotidiano, que podem controlar nossas experiencias e a forma como vivemos. É assustador pensar nisso!
Que algumas decisões institucionais ou coletivas podem modificar a nossa vida. A nossa vida! Para melhor ou para pior.
O cenário maior com o qual nos conectamos enquanto religiosos diz respeito a uma onda ultraconservadora. Alguém diria, que ótimo! No entanto, essa onda costuma recuar em conquistas fundamentais de grupos não-hegemônicos, isto é, grupos comumente ausentes na distribuição de privilégios e direitos e que, após um tempo de luta e organização, conquista estes privilégios e direitos. Movimentos ultraconservadores são os que, em geral, desejam retroceder a um tempo no passado no qual suas posições privilegiadas não estavam sob disputa ou compartilhadas de alguma forma.    
Pensando nesse momento no ambiente da religião, em especial, da nossa denominação batista, um nervo parece exposto com a possibilidade de atrapalhar a caminhada pessoal e coletiva. Uma espécie de refluxo ultraconservador, na esteira do que acontece em outras áreas na contemporaneidade. Não é a primeira vez na nossa história denominacional, em nossas terras ou em outras terras americanas, que experiências pessoais com Deus, vivências litúrgicas, formas de organização eclesial, composição étnica da membresia, atualização cultural, seja na presença de instrumentos considerados em um tempo profanos em outros não, seja nas vestimentas pertinentes para homens e mulheres, entre outras questões de costumes e acordos culturais, até a ocupação de ministérios ordenados, como a diaconia, por exemplo, ficam sob o clivo decisório de um colegiado institucionalizado de certos pastores.
Retomando o texto “Um falso Reino”, que inicia essa reflexão preparatória para a 98ª assembleia da CBB, o problema se instala- e preocupa-  quando este colegiado projeta um Reino cujo Senhor não está presente. Menos piedosamente falando, um Reino fake que, inclusive, descarta os processos históricos libertários que identificam a nossa forma batista de viver a fé, assentada sobre o pilar de Jesus de Nazaré, é claro, mas também sobre o pilar da soberania e autonomia da igreja local e sobre o livre exercício dos ministérios no corpo, que é a igreja. Esta forma libertaria é resultante de um processo histórico sangrento, sob luta e sob o signo da resistência a poderes hegemônicos. Não é saudável esquecer que o que somos é fruto desta resistência dentro do próprio cristianismo.
É preocupante, portanto, que o desejo de reformar documentos enseje a oportunidade de recuo nos direitos ou nos ideais do Reino de Deus que norteiam nossa identidade batista.  

continua

sábado, 7 de abril de 2018

Um falso Reino, em preparação para a 98ª Assembleia da CBB, parte 1


Mateus 13:45-46
Não é fácil compreender a Transcendência, para quem acredita nela. Temos a limitação da alteridade com um Outro que não se parece conosco, em essência; a limitação da linguagem para expressá-lo e, ainda, da capacidade de compreensão da integralidade do Mistério. Jesus de Nazaré tem sido nosso mediador também e, sobretudo, nesse processo de capturar algo da Transcendência, fazendo-nos compreender ainda que seja como por um espelho, como diz Paulo, um reflexo parcial do que nos será revelado completamente no tempo determinado. 
O problema se instala quando também não conseguimos acessar o que Jesus nos revela. Quando por algum motivo pessoal, formativo ou teológico-religioso nos tornamos ignorantes na compreensão daquilo que Jesus revelou e está registrado nos Evangelhos. Às vezes parece que os discípulos e discípulas de Jesus são como a multidão que o seguia pela Galileia até Jerusalém, incapazes, segundo o evangelista Mateus, de enxergar e entender o que estava diante dos seus olhos e aberto à experiência.
Parece que uma das questões que visibiliza essa incompreensão é justamente como os discípulos e discípulas de Jesus entendem o Reino de Deus. No seu tempo, essa incompreensão já tinha se instalado por aqueles que sonhavam com uma revolução armada para depor os conquistadores romanos. Ou ainda aqueles que só enxergavam ciscos e se faziam de cegos aos camelos. O que esses dois grupos projetavam quando ouviam sobre o Reino eram produto de suas ilusões, seus desejos de poder e controle, seus zelos pelos seus lugares institucionais dentro da religião judaica, enfim, de corações endurecidos ao que Jesus realmente dizia. Um falso Reino, portanto. Porque se o que entendemos por Reino de Deus não tiver a presença do discurso de Jesus, é um Reino ilusório, falso, cujo dono não governa, está ausente.
O Reino de Deus não é sinônimo de igreja, instituição religiosa ou qualquer outro tipo de associação que pleiteia controle. O Reino é de Deus e, se é assim, nenhum de nós deve governá-lo ou desejar controlar quem o integra, seus ideais, seu poder e seu alcance. O Reino de Deus é um fermento, um tesouro escondido, uma pérola de grande valor. O Reino de Deus, segundo Jesus, é para quem se faz criança, para os pobres desse mundo, para os doentes e pecadores, para a humanidade de homens e mulheres que se rendem ao seu poder. Um Reino dos que não podem, dos simples, dos últimos desse mundo.   
Se o Senhor do Reino pensa dessa forma, como seus súditos insistem em serem maiores do que o seu Senhor? 

   continua

sábado, 17 de março de 2018

Ignorância das femininas

Ultimamente, existe no meio evangélico um grupo de líderes que têm insistido em usar como uma correção de comportamento e ideias, a palavr...