As opiniões deste blog não representam, necessariamente, o conjunto dos pastores batistas: homens ou mulheres.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

eu ainda não calei os meus desejos




Javé, meu coração não é ambicioso, nem meus olhos altaneiros. Não ando atrás de grandezas, nem de maravilhas que me ultrapassam.
Não! Eu fiz calar e repousar meus desejos, como criança desmamada no colo de sua mãe. Salmo 131


Os salmos são visitados há séculos em momentos litúrgicos ou de devoção. O motivo parece óbvio. Esses poemas dão voz a muitas inquietações de nossas almas. Verbalizam uma piedade que reflete as considerações que fazemos quando nos relacionamos com os outros e com o nosso tempo.
Este, colocou-se diante de mim como espelho. Somos seres desejantes e quanto mais conhecemos , mais nosso desejo se dilata. Esta sociedade fabrica desejos o tempo todo. Em geral, relativos ao consumo de mercadorias ou de mercadorias travestidas de ideias. Difícil resistir ao desejo.
Como jovem, meu coração era ambicioso, meus olhos altaneiros, corria atrás de grandezas e maravilhas. 
Até recentemente essa era minha sanha. 
Muita coisa mudou e se acomodou depois de um longo ano de escuta interna e que ainda continua dando sinais de continuar assim por muito tempo.
Ainda desejo muito algumas coisas, consideradas vitais e ainda não alcançadas. A serenidade é uma delas, apenas para constar. Dar conta de um desassossego crônico diante da vida, é outra. Outros desejos  já se calaram e repousam satisfeitos ou enterrados no tecido do qual somos todos feitos: memória e pó.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Uma grata surpresa!


Envelhecer é ter frio ?



Sendo, pois, o rei Davi já velho e entrado em dias, cobriam-no de vestes, porém não aquecia. Então disseram-lhe os seus servos: Busquem para o rei, meu senhor, uma moça virgem, que esteja perante o rei, e tenha cuidado dele, e durma no seu seio, para que o rei, meu senhor, aqueça. 1Rs 1,1-2

Há experiências humanas inevitáveis, como morrer, por exemplo. Não nos acostumamos a pensar na morte, a não ser quando nos abate a doença ou quando participamos de seu feio espetáculo nos sepultamentos alheios. Por um breve instante, a vida nos assola na sua fragilidade e limitação, para, em seguida, nos convidar a celebrar e seguir em frente. Porque a vida em nós é mais forte do que a morte.
No interregno entre o nascer e o morrer, está nosso caminho. Nele, acumulamos saberes, bagagens emocionais boas e más, escolhas boas e más,  mas também jogamos fora ou vemos se perder outras tantas coisas boas e más.
O rei Davi envelhece despojado de algo que lhe aqueça o corpo e a alma. Triste isso! Fácil de acontecer quando caminhamos jogando fora pessoas que nos são caras, ideias e paixões que nos movimentam e alentam nosso descanso. O texto do eclesiástico ressoa: como esperamos colher na velhice o que não plantamos na juventude? Percebam que dinheiro e poder transformam-se em peles que não aquecem, incapazes de solucionar o desconforto.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

sábado, 6 de setembro de 2014

Tudo o que um poema não faz




Minha grande amiga me disse inúmeras vezes para escolher um "pedreiro" para viver a vida. Nada contra pedreiros, mas ela dizia para encontrar uma companhia menos complicada.
Todo mundo  sabe que há certo tipo de gente que gosta de complicar tudo. Tudo mesmo. Mea culpa, jamais reduzi minhas expectativas ao simples, por mais que ache esse o melhor caminho.
Mas sabe o que é? Em negócios do coração, pra mim, funciona assim:
1. De repente, sem esperar nada, eu vejo
2. De repente, sem planos, descubro que quero
3. De repente, com doçura, chega o sentimento
4. De repente...   Drummond, Fito Paez e tudo fica pequeno.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Pátria Minha

Depois de assistir a propaganda eleitoral, sonhei com Vinícius

Livro - Poemas, Sonetos e Baladas & Pátria Minha

A minha  pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.
Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.
Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!
Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!
Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.
Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu…
Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!
Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.
Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.
Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!
Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão…
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.
Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.
Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

no meio do caminho tinham umas pedras...

https://bipolarcentrada.wordpress.com/2014/02/
Marcos 10, 32-45

A vontade de Deus nem sempre é nebulosa. Experimentamos e entendemos Deus aos poucos, mediante a abertura para entender e experimentar. Talvez seja essa gradativa (ou circular ou espiral) compreensão daquilo que Deus quer o fator mais inquietante da nossa experiência cristã, pois nos pegamos desejando que Ele escrevesse em letras garrafais e neon qual é o próximo passo. 
Tenho crido que a vontade de Deus em sentido amplo está harmonizada com a imagem que Jesus de Nazaré constrói sobre seu Pai. Liberdade ética, vivência responsável e comprometida com o próximo, amor, perdão, esperança e luta pela justiça são capilaridades dessa imagem. Traduzir essa complexa imagem identitária de Deus para as nossas relações e decisões nos coloca em consonância com a sua "vontade". 
O texto de Marcos 10, 32-45 é um convite para pensar sobre nossa caminhada à luz da imagem construída por Jesus, atendendo às expectativas dele a nosso respeito como discípulos e discípulas.
Jerusalém, para onde Jesus e os discípulos caminham, é a parada final para o Mestre. A essa altura, ele se prepara, e aos seus discípulos, para a consequência dos anos de ação e pregação do Evangelho do Reino. Ele conhece a resistência individual e coletiva às mudanças na ordem social e pessoal. A revolução interna e ética proposta é mais perigosa do que espadas. O mundo(oikos) não acolheu a mensagem de Jesus e o caminho esperado é a eliminação do portador (es) desse discurso.
O texto apresenta o medo e o espanto dos discípulos nessa jornada e o destemor e arrojamento de Jesus à frente deles. Cumprir a vontade de Deus tem consequências,  nem sempre positivas. Apesar desse cenário desfavorável, não cabe a disputa pelo poder interno, não cabe o desejo de se assenhorar do caminho, não cabe utilizar as armas e estratégias vigentes se elas estão a serviço da opressão e em desarmonia com a vontade de Deus. Cabe a clareza e determinação de Jesus em ir na direção da vontade de Deus, porque ele já está nela. Essa consciência produz a esperança na ressurreição, esperança no poder da vida sobre a morte. 
Entre nós, não deverá vigorar a lógica materialista, opressora, capitalista. Entre nós, o desejo de servir é, em última instância, o resumo daquilo que Deus espera de nós.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

é importante falar das pedras



"Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra. -  Mas qual é a pedra que sustenta a ponte? - pergunta Kublai Khan. - A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra - responde Marco , mas pela curva do arco que estas formam. Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta: - Por que falar das pedras? Só o arco interessa. Polo responde: - Sem pedras, o arco não existe."               Ítalo Calvino, "As cidades invisíveis".
A realidade esconde complexidades. O todo não existe sem as partes. A superfície mais lisa, guarda inúmeros detalhes. Um naco de unha, abriga milhares de átomos. Tudo tão rico e importante!
Em uma cultura de resultados e aparências, como a ocidental, só o arco interessa. Ou ainda, o produto final, desvalorizando processos e percursos pessoais e institucionais.
Podemos nos enredar nessa lógica míope e viver em constante frustração, acreditando nas sandices dos profetas do deus deste século. Um explorador do passado imaginava a conexão entre as terras, pessoas e coisas, que o processo é importante, que existe valor no empilhamento de cada pedra singular.
Na megalomania dos resultados espetaculosos, o simples perde seu valor.  O humilde é desalojado! A vida perde!

domingo, 10 de agosto de 2014

útil para si mesmo



A palavra é o princípio de qualquer obra e, antes de agir, é preciso refletir. A raiz dos pensamentos é a mente, e ela produz quatro ramos: bem e mal , vida e morte. Mas os quatro são dominados pela língua. Existe quem é capaz de instruir muitas pessoas, mas é inútil para si mesmo. Eclesiástico 37, 16-19
Algumas pessoas distinguem a sabedoria humana da sabedoria divina. Como se elas não pudessem se misturar em algum momento ou mesmo se alimentar uma da outra. O sábio corre o risco de se enfadar de vez em quando a vida, pois quem conhece não pode deixar de se responsabilizar.
O texto do Eclesiástico, inspirado nos ensinos de Jesus Ben Sirac (século II a.C.), segundo a Tradição,  é repleto de ponderações sobre a vida na sua totalidade. Ele propõe a necessidade de refletir antes de agir. Na mediação entre reflexão e ação, está o discurso. O discurso pode refletir o bem e a vida ou o mal e a morte. Obviamente sem dualismos excludentes, porque parece que o ser humano transita entre uma realidade e outra, escolhendo, ora  o bem, ora o mal; rendendo-se à vida ou a morte.
A sabedoria (humana ou divina) passa necessariamente pelas melhores escolhas, aquelas que promovem a vida e o bem. Na dinâmica da vida, é muito mais fácil solicitar uma atitude sábia dos outros. O problema se instala quando nós precisamos fazer uso do que sabemos e ensinamos. Quando nós mesmos precisamos escolher entre o bem e o mal, entre vida e morte nas 24 horas diárias.


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

espera um pouco, Jesus

disponível em:http://tempodeviver2.blogspot.com.br/2012/04/jogo-minha-rede-no-mar-da-vida-e-as.html

Ao passar pela beira do mar da Galiléia, Jesus viu Simão e seu irmão André: estavam jogando a rede no mar, pois eram pescadores. Jesus disse para eles:"Sigam-me, e eu farei vocês se tornarem pescadores de homens". Eles imediatamente deixaram as redes e seguiram a Jesus.
             Evangelho de Marcos 1,16-18

       Mesmo o mar da Galiléia pode ser assustador. "Água é bicho sem cabelo" , diziam os antigos com respeito. Tanta coisa pode acontecer nesse trabalho de enfrentamento do ser humano raquítico diante da força da natureza. No entanto, acorda-se bem cedinho, verificam-se as redes e depositam fé nos braços e nos cardumes. O mundo se resume ao trabalho e a luta diária pela sobrevivência. Nessa altura da vida, não há mais tantos segredos a desvendar, já acumulou-se muita técnica e maestria no labor. O terreno é velho conhecido.
     De repente, aparece um estranho que os vê de longe, trabalhando no ordinário da vida. Dirige-se a eles e os convida para deixar aquilo que estavam fazendo para fazer uma outra coisa, diferente do que conheciam. Utiliza uma metáfora para aproximar. Não há grandes explicações, nem palestra motivacional, nem aparência de sucesso. O que existe é um homem empoeirado, rosto plácido, familiar até, ordinário como eles mesmos. A oferta parece com aquilo que eles já realizam: pescadores! Mas existe um diferencial. O que vem pela frente é difícil de se trabalhar, traiçoeiro como o mar, complexo e desconhecido. Pescariam pessoas, não peixes.
    O extraordinário acontece. Nenhuma dúvida no coração. Nenhum temor sobre o futuro. Nenhuma dor pelo passado. Nenhum sentimento de perda. Eles imediatamente deixaram o que estavam fazendo e o seguiram.
   Por que ainda peço para que Ele espere um pouco? Deixa eu arrumar a casa, deixa eu me despedir dos meus, deixa eu construir alguma coisa, deixa eu ganhar um fôlego, deixa eu me recuperar da última empreitada, deixa eu...
   Espera um pouco, Jesus. Está difícil atender ao imediatamente. É muito imediato, urgente. Já não é o bastante seguí-lo? Já não é suficiente estar tão misturado às suas palavras e identidade? Não posso viver a fé no meu próprio ritmo?
   Parece que não. Algumas coisas não esperam. A vida em sua totalidade é urgente. A rede já foi lançada. É preciso pensar rápido, fortalecendo os braços e a fé nas pessoas.

domingo, 22 de junho de 2014

A Rosa morreu

Rose Marie Muraro morreu ontem, dia 21, no Rio de Janeiro. Talvez você não a conheça, mas sua presença pode ser sentida toda vez que pensamos nas relações desiguais entre homens e mulheres dentro e fora da religião.
Hoje, nós religiosas, deveríamos considerar a seguinte frase de Rose: "Educar um homem é educar um indivíduo, mas educar uma mulher é educar uma sociedade inteira."

sábado, 21 de junho de 2014

Ordenação de mulheres entre os Batistas brasileiros, uma história em construção



Encontro de pastoras em Niterói, RJ
 Em 10 de julho de 1999, acontecia em um eletrizante e histórico culto na periferia de São Paulo, capital, minha ordenação (ou consagração) e posse como pastora titular da PIB em Campo Limpo, uma igreja Batista filiada à Convenção Batista Brasileira.
1999 foi um ano divisor de águas na denominação Batista e na minha vida pessoal. O concílio público foi realizado no dia 26 de junho de 1999, um dia após meu aniversário de 30 anos. Já não era uma jovenzinha, mas a maturidade necessária para enfrentar aquele ano foi sendo ganha aos poucos. Até hoje é impossível esquecer - e não devo - como a decisão de uma comunidade pode transformar toda uma realidade.
Quando a PIB em Campo Limpo instaurou o processo de sucessão pastoral não imaginávamos até onde chegaríamos e o quanto esse caminho poderia ser revolucionário na realidade denominacional.
Engana-se quem achou que sabíamos o que viveríamos, os enfrentamentos , as perseguições, as perdas, os ganhos, a compreensão histórica, entre tantas coisas vividas por mim e por eles e elas, irmãos e irmãs dessa corajosa e batista igreja periférica da capital. Fomos como Maria e Moisés, compreendendo gradativamente e agindo corajosamente na superação dos obstáculos do caminho.
Sou imensamente grata a Deus por viver seu kairós, imensamente grata a Campo Limpo por ratificar minha fé na comunidade e no seu poder. Imensamente grata a amigos e companheiros/as que me sustentaram, motivaram, desafiaram, criticaram, mas que sempre de alguma forma , entenderam que eu poderia viver aquele momento. Gostaria de citar todos, mas cito agora apenas o pr. Antonio Carlos de Mello Magalhães.
pastores da PIB em Campo Limpo, SP

Essa é uma história em construção, sendo escrita. Não há, ainda, nenhum livro ou texto que dê conta do passo a passo até aqui.
No ano de 2016, temos um projeto em parceria para registrarmos essa e muitas outras histórias de vocações pastorais exercidas por mulheres no Brasil Batista .  Até lá, vamos reunindo os textos. Alguns com informações corretas, outros, nem tanto, mas todos compõem os fios a serem tecidos por nós, pastoras batistas do Brasil, na preservação de nossa memória.

domingo, 15 de junho de 2014

de grão em grão

Capa do meu primeiro livro 

No facebook, Pr. Edvar Gimenez comentou sobre um livro "libertador" no início de sua formação teológica. História boa que me fez lembrar da minha própria lista de livros "perigosos". Podem ser considerados por alguns dessa forma, porque funcionam como fármaco, isto é, adoecem a gente, revelando nossas enfermidades intelectuais, para depois nos curar/libertar.
Lembrei de uma definição de leitor que conheço. O leitor é um "ladrão", pois recolhe sem grande esforço o que outros plantaram e acumularam e transforma em coisa sua. Gosto dessa definição, pois me sinto um pouco assim. Apropriando-me, mesmo que do meu jeito, nas minhas ressignificações e  seleções, da fortuna alheia. De grão em grão, na intenção de me saciar em algum momento.
A imagem dessa postagem é a capa do meu primeiro livro. Lido com avidez aos sete anos. Está comigo hoje, porque minha mãe guardou e tive a sorte de reencontrá-lo. Ele me fez sentir como a menina do conto magistral de Clarice Lispector "Felicidade clandestina".  Desde que o ganhei, alguns livros eu abraço contra o peito, extasiada e liberta como na primeira vez.

sábado, 14 de junho de 2014

O coração cheio, mas a boca em silencio

O texto de Lucas 6 é conhecido. Um daqueles ensinamentos proverbiais tão caros ao mestre. O homem bom tira boas coisas do coração e o homem mal, tira coisas mas. É difícil enganar a nós mesmos e aos outros quando, por exemplo, no meio de uma conversa, falamos algo que ofende  nosso interlocutor. Apesar das regras de civilidade que organizam nossas relações, o que vai dentro de nós, teima em escapar. Isso serve para coisas boas também. Recordo-me da primeira vez que confessei amar alguém, olho no olho, inesperadamente. As nossas verdades escapam com certa freqüência.
Jesus lembra que o que dizemos é reflexo do que pensamos e sentimos. E, obviamente, precisamos qualificar nossa reflexão e cultivar bons sentimentos para que haja uma sintonia boa entre o que somos e aquilo que dizemos ser e fazer.
A frase-resumo "a boca fala aquilo que o coração está cheio"  serve igualmente para pensarmos por outro viés. Verbalizar é algo maravilhoso, um presente. As mulheres tendem a ter mais facilidade para isso, porque investem mais tempo em entender o que passa dentro de si.  O processo de reflexão se completa quando falamos.
Bom, algumas vezes isso também é um problema, pois não verbalizamos o que vai dentro de nós. A pergunta que me motiva é por que calamos? Por que não dizemos sempre aquilo que precisa ser dito?
Sei das estruturas culturais que sonegam nossas vozes, mas acredito que o silêncio é resultado de um acordo ou conivência com aquilo que nos cala.

domingo, 8 de junho de 2014

Javé é um Deus que sabe

Certa vez, no dia do pastor(a), os irmãos de minha igreja lembraram-se que pastor também é ovelha. Na simplicidade dessa metáfora reside uma verdade às vezes cuidadosamente negligenciada por nós ministros. Nossa função não tem a centralidade que pensamos, pois estamos todos na mesma condição diante de Deus.
A discussão em 1Sm sobre a necessidade ou não da monarquia em Israel é suplantada pela afirmação de como deverá ser esse rei, qual seu compromisso vital. Para Samuel, o rei é Javé, os monarcas humanos devem representá-lo, ou seja, torna-lO presente. Nós pastores (as) não somos Reis, muito menos tiranos , espero, mas somos líderes do povo com o compromisso vital de tornar Deus presente em nossas vidas e comunidades de fé.
No maravilhoso e engajado cântico de Ana (1Sm2,1-10), os atributos de Deus são impressionantes. Nossa pequenez de ovelha desconhece a complexidade da existência e os caminhos da história, mas cremos, como Ana, que Javé é Deus que sabe. O que Ele sabe, vamos compreendendo aos poucos. Por isso, o esperado é ficarmos mais sábios. Como disse a um colega no dia de sua ordenação: tudo muda, nada muda. Nós continuamos com nossas limitações pelo pouco que sabemos, mas Deus trabalha conosco, e em nós, para sairmos da ignorância em direção ao que Ele sabe.

domingo, 1 de junho de 2014

seus olhos amorosos sobre mim


Em Tiradentes, há uma igreja cristã com uma escultura do rosto de Jesus feita por um mestre barroco no arco da entrada principal. A intenção do artista era criar uma ilusão de ótica. De qualquer lugar que você olhasse, tivesse a sensação de que os olhos do Cristo estavam te fitando. 
Quando na igreja de minha infância cantavam o amedrontador cântico "...o Salvador do céu está olhando pra você, cuidado mão, olho, boca , pé  o que fazem", não tinha ideia do quanto o Salvador poderia ser amoroso e não necessariamente um vigilante implacável das minhas ações. 
Não quero fazer você pensar que não reconheço a face da justiça divina, reconheço-a sempre; convido-a, sempre que me dou conta do algum mau comportamento, para conversar comigo e me colocar no prumo ético de Jesus Cristo. Mas há muito tempo que, para mim, a face de Jesus tem tanta vida, tanto calor e amor que mesmo sua justiça é um misto de misericórdia e compaixão. Isso ajuda muito mais a viver responsavelmente a fé do que as ameaças do fogo do inferno.
Neste domingo ensolarado no Rio de Janeiro, de qualquer lugar que eu olho, Jesus de Nazaré me devolve o olhar, com misericórdia e compaixão. 

sábado, 24 de maio de 2014

terça-feira, 20 de maio de 2014

filiações de pastoras nos estados de MT, MS, RS, PB



Parafraseando Jesus em Mateus 5,20: "se os religiosos seguidores do cristianismo neste tempo não superarem a mentalidade legalista dos religiosos de todo o tempo, não faremos parte do Reino e o Reino não fará parte de nós." A lei sempre terá uma função importante, assim como os ritos, de regularizar a vida em grupo. Mas Jesus colocou em seu discurso um "eu, porém, vos digo", com ênfase na conjunção adversativa, impossível de ser negligenciada. A lei é boa, mas produz cegueira sobre o que é mais importante. Para Jesus, a vida e as boas relações eram sinal da presença de Deus e a "tangebilidade" de sua vontade. 
Saibam que aqueles que se sentem oprimidos sempre recorrerão às conjunções adversativas do Mestre. Isso porque elas não são apenas discurso bonito, mas potência operativa. Pra usar um termo contemporâneo: Jesus "empodera" discursivamente e operativamente o indivíduo que se sente oprimido pelas forças religiosas e seculares do seu tempo. Aqueles homens e mulheres que conhecem esse Mestre do "porém", lutam pela libertação.
Volto a afirmar que a decisão da ordem dos pastores batistas do  Brasil e ,agora, as decisões estaduais, não modificam a legitimidade de todos os concílios e ordenações pastorais de mulheres até então. Nós e nossas comunidades de fé, nos apropriamos do "porém" cristológico há muito tempo. O resultado da assembleia de janeiro é positivo porque retira a tensão das comunidades e vocacionados, favorece a visibilidade das ordenações. 
Já as decisões estaduais majoritárias (84%, 58%, etc) indicam um desejo destes nossos irmãos pastores de exceder/superar/ a justiça sem misericórdia dos escribas e fariseus denunciada por Jesus no sermão do monte. Fico tremendamente feliz por testemunhar este momento de revisão da ordem. Ainda mais com a possibilidade de renovo no espírito de solidariedade entre os colegas que a presença das pastoras pode vir a possibilitar. Logo, é uma conquista deste nosso tempo e deve ser celebrada.
Aliás, os pastores fluminenses e cariocas precisam decidir sobre as filiações urgentemente. No quadro geral das ordenações no Brasil, o estado do Rio de Janeiro é o de maior percentual. A justiça também precisa exceder por aqui.
Quanto a mim, sigo na decisão de não-filiação. E é imperativo afirmar o porquê, pois esta é a missão que recebi: Todo o poder vem de Deus. Se ele me "empoderou" com a vocação, eu disse "sim". O poder de confirmação, ordenamento e deslocamento pastoral é, entre os Batistas, da comunidade de fé. Qualquer pensamento diferente disso, entre nós, com nossa forma de governo, com nossos princípios, é de procedência humana/maligna. Não consigo esquecer essa verdade e sempre que possível, irei lembrá-los também.
A Ele seja glória e honra, assim como ação de graças pela existência da Igreja.

perspectiva


Uma parede ou um telhado?
Uma sebe ou a copa de uma árvore?
Mudar o ângulo da câmera muda tudo!

É palavra de Deus ou do homem?
É belo ou feio?
o ângulo muda tudo!

sexta-feira, 9 de maio de 2014

cogito

Nos últimos 6 anos, tenho me preocupado em como serei lembrada. Parece uma estupidez alguém ainda jovem, em uma época de espetacularização e futilização da vida, ficar pensando no seu próprio "legado". Eu mesma questiono isso, inclusive porque talvez esse sentimento/comportamento revele uma autoimagem megalômana, como se minha vida tivesse importância vital para a humanidade. "Eu que sempre apostei na minha paixão"...Eu, que sempre achei que faria algo grande a ponto de entrar para a História. 
O divã explicaria muita coisa sobre mim. Mas resisto a ele motivada por uma racionalidade duvidosa sobre minha própria capacidade de verbalizar, racionalizar e nomear as coisas. Tenho mais confiança em mim do que nos outros. Sim, tenho uma desconfiança "natural". Sim, tenho um fortíssimo instinto de preservação que falhou apenas em dois momentos na minha história. Um, amoroso; outro, profissional. A estes dois momentos eu reputo a perda na crença nos "truísmos". Perder a inocência fratura a alma.
Para quem já leu "Grande sertão:veredas" de Guimarães Rosa, conhece bem a figura de Riobaldo. O que me impressiona no texto é como ele vai narrando sua história solicitando ao "doutor" ouvinte e a nós,  leitores, uma certa solidariedade com ele. Gosto do jeito como ele se justifica diante da memória de Diadorim, gosto do jeito como ele "investiga" sua história para tentar responder o irrespondível:"a gente vive pra quê?", "a quem responsabilizar pelo fracasso ou sucesso de nossa história?"
Um crente piedoso teria uma resposta direta para as duas questões. Não sou piedosa! Percebo, neste momento da minha caminhada, que é praticamente impossível uma ideia simples responder a questões complexas.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

A inveja mata


Nós não gostamos de admitir, mas sentimos inveja muitas vezes. Às vezes, em muitos momentos de um mesmo dia uma série de situações e interações nos despertam a famigerada.  Processo complicado é quando em um momento inesperado, eu (e você) somos pegos pela semente deste mal que parece apontar para aquilo que nos falta, sim, mas para a falta da solidariedade e alegria com aquilo que o outro naquele momento possui. Ou seja, a inveja aponta para duas realidades difíceis de suportar: a ausência do que queremos e a ausência da empatia com o próximo.
Pois bem, lendo os twitter fiquei, recentemente, com inveja de um cidadão.  A felicidade dele me atingiu como uma bala perdida no peito. Não sabia de onde vinha aquela sensação ruim, mas ela estava lá, comendo minha carne, afetando órgãos vitais. Definitivamente não gosto da sensação de não saber nomear as coisas. Quando tenho o nome, sei, e, portanto, posso lidar com o que for necessário lidar. Ruminei um tempo e cheguei a conclusão: pura inveja!
O provérbio no capítulo 14,30 sentencia: "O coração com saúde (em algumas versões com paz) é a vida da carne, mas a inveja é a podridão dos ossos". Não é necessário ser um grande hermeneuta para perceber a oposição positiva e negativa do texto. Inveja não faz bem a saúde, não constrói, não é uma atitude positiva, nem agregadora de qualidade de vida. Nada novo. Mas penso na oposição positiva do provérbio:" o coração com saúde" ou "o coração em paz". Matutei de novo, assustada: A inveja nasce, então, do meu desassossego? a inveja nasce do desequilíbrio com minha própria vida? a inveja nasce das minhas incompetências e frustrações?  "Tem solução, doutor?" Deve ter. E é melhor eu procurar! 

sábado, 3 de maio de 2014

saudade


Saudades de Campos. Tempo das primeiras coisas. A foto do Coreto foi tirada na praça perto do pensionato onde eu passeava depois do almoço. Gostava de pensar na vida, na intensidade de minhas descobertas teológicas e existenciais. Voltei lá no ano passado. Tudo diferente, menos o coreto...

sábado, 19 de abril de 2014

Viver!



Parafraseando Paulo à respeito da fé na ressurreição:
Se a vida não puder superar a morte, somos as mais miseráveis das pessoas.


sábado, 12 de abril de 2014

para que viemos?

No evangelho de Marcos capítulo 1 iniciamos a leitura de uma narrativa vibrante e dinâmica sobre Jesus de Nazaré. Logo no início há uma preocupação com uma especie de continuidade de ações, já que para Marcos, Jesus inicia a sua pregação sobre o Reino após a retirada de cena de João Batista. É o evangelho do filho de Deus com  toda a carga de situações miraculosas e extraordinárias que devem envolver um tipo de aproximação do Sagrado. 
Uma pergunta fortuita dos estudos sobre Jesus nos evangelhos, sobretudo em Marcos, é se ele teria plena consciência de quem ele era. Gosto de afirmar que, assim como Paulo, e a maior parte dos adultos autoreflexivos, Jesus tinha uma profunda consciência de sua missão, do seu lugar no mundo. Sei que as identidades estão sempre em processo, mas na fase adulta, parece que não construímos o-que-há-de-vir do nada. Parece, pelo menos pra mim, que vamos agregando por seleção ora consciente, ora não, aquilo que mais se afina com o que já somos agora.
Tenho também uma intuição de que essa consciência do que somos, logo, para onde nos encaminhamos na vida é fundamental para nossa saúde. Apesar de cada dia ser novo, apesar de cada momento ter novas solicitações, apesar da flexibilidade dos nossos planejamentos internos e externos. Há algo perceptível que nos move. Talvez dinheiro, poder, sucesso, sexo, família, religião, política, entre outras zilhões de possibilidades. 
Jesus, em Marcos, tinha algumas certezas fundamentais. No versículo 38 do capítulo 1, afirma para os discípulos: "foi para isso que eu vim". No contexto: pregar o evangelho e curar as pessoas de suas mazelas. Trocando em miúdos, Jesus veio para os outros. Para mim e para meus colegas do ministério pastoral isto é um pouco desconcertante. Uma existência inteira dedicada aos outros é algo realmente desafiador. Se a resposta de Jesus não faz eco em alguns (ou todos) os momentos de nossa vida, transformar a afirmação em pergunta já alimenta por si só muitas noites de insônia.
                        

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Ditadura, nem mesmo a de Deus, parte 1






Nestes 50 anos desde o golpe civil-militar no Brasil, nós mudamos muito e a humanidade também. Aliás, a marca deste nosso tempo comum é justamente a rapidez com que as coisas mudam externamente. Por dentro, o ritmo é lento. Resistimos, encastelados em nossa sadia ou doente idiossincrasia. A antiga série da HBO "Galáctica" está oficialmente entre as minhas preferidas. Assisti tudo compulsivamente. O roteiro ilustra bem o que disse acima. O tempo passa e parece que estamos fadados a repetir erros, manter sentimentos megalômanos, violências, exclusão. Usamos os deuses para nos justificar ou os matamos para justificá-los em suas aparentes omissões diante daquilo que fazemos conosco e com os outros. Galáctica serve à mentalidade do eterno retorno. 
Gostaria de pensar e dizer aos filhos que jamais terei que algumas coisas não retornam mais. Que após um longo e doloroso processo de aprendizado, compreendemos a vida. A vida! Uma abstração! Sim, uma construção discursiva entrelaçada à experiências sensórias. A vida, calorosa na sua simplicidade cotidiana: o vento, o sol, a chuva, a terra, os seres vivos. Tudo que nos atinge em nossos corpos, em harmonia ou em inquietação. Vida, em níveis subjetivos e pessoais de complexidade. Vida como potência do que sonhamos! Compreendemos a vida e, portanto, filhos que não terei, não repetiremos o sofrimento que causamos. Em nome de nada, nem de nossa fé, nem de nossas ideias, repetiremos nenhuma especie de barbárie.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Vozes que clamam fora do deserto ?


 Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do SENHOR; endireitai no ermo vereda a nosso Deus. Isaías 40
Lendo o livro "Profetas e profetisas na Bíblia" de Jacir de Freitas Farias parei no trecho relativo à João Batista. Personagem ícone de um tipo específico de profetismo no ambiente do judaísmo, João precisa ser constantemente visitado. Nos evangelhos canônicos, João Batista tem especial destaque em Lucas. Ganha status similar a Jesus nas narrativas de nascimento, apontando sua importância ou uma grande curiosidade para a comunidade lucana, visto que as histórias de Jesus e João se intercruzam. O livro de Jacir chama a atenção para o ser profeta no deserto. Não desce a fundo nessa questão, aliás, que merece ser investigada pela pesquisa bíblica (se já não o foi), já que, como disse, o deserto é parte integrante em João de um certo tipo de profetismo, talvez em ostensiva oposição às cidades e as suas instituições, ou ainda, como eco saudosista ( mas não menos militante) de uma experiência mais rural, familiar e simples.
O deserto nos mantém afastados da maioria. Influencia as pessoas, é claro, mas nos isola do convívio. Batista, por exemplo, tinha discípulos e tinha também uma influência junto ao povo temida por Herodes. No embate entre o profeta e a cidade, este profeta perde.

O texto de Farias gerou em mim uma suspeita tangencial. 
O que é ser profeta fora do deserto?  

O que significa viver misturado às gentes, todas diversas? O quanto de trabalho e de força precisa ter a mensagem profética de um oráculo imerso no mal, no burburinho, dentro das instituições mofadas e pernósticas do nosso tempo? De que forma resistir sem deixar-se perder?

Pra. Silvia Nogueira