As opiniões deste blog não representam, necessariamente, o conjunto dos pastores batistas: homens ou mulheres.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

promessas para depois


...mas vendo-as de longe, e crendo-as e abraçando-as, confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra.
Hebreus 11:13


Ao falar da fé como acreditar naquilo que se aguarda, mesmo sem vislumbrar os sinais da realidade almejada, o autor de hebreus fala de esperança. Creio que meu nome está lá naquela lista de homens e mulheres que seguiram mantendo acesa a chama de suas certezas, embora nenhum sinal de realização fosse sentido. 
Eles morreram sem viver o esperado e, poeticamente, o autor sublinha que viam de longe, continuaram a crer e a confessar que "aqui" não é lugar de descanso, pois a vida é caminho onde se peregrina. Não somos donos da destinação, nem mesmo da vida, mas somos responsáveis por nos mover, acreditando sempre. Eis aí o retrato melancólico da condição humana : saber de seu pequeno poder e de necessitar colocar-se sempre em marcha.
Este é um dos motivos pelos quais persigo o Sagrado. E pelo qual milito em nome de minhas certezas. Sei da minha condição. Sei que as variáveis não estão todas em minhas mãos, sob o meu controle. Sou peregrina, portanto.

sábado, 11 de janeiro de 2014

94ª assembleia da Convenção Batista Brasileira: porta aberta às pastoras?



Se me dissessem há 15 anos que a porta para a filiação irrestrita de pastoras à OPBB estaria quase completamente aberta na 94ª assembleia da Convenção Batista Brasileira, eu não demonstraria surpresa. Foi uma longa caminhada nestes 15 e muito mais longa para trás, considerando muitas outras ordenações com finais infelizes, interditadas por violentos "piedosos" ou abortadas ainda quando eram gestadas por vocacionadas em formação teológica ou missionárias com vocação pastoral nos campos. Há muito tempo nós batemos, como viúvas insistentes e impertinentes.
Não acredito que todas as lideranças femininas tenham vocação pastoral, que fique claro! Nem acredito que esposas de pastores tenham necessariamente vocação pastoral ou devam ser chamadas de pastoras por suas congregações. Não mesmo!
Acredito que Deus, através do Espírito Santo, deu dons aos homens e mulheres que constroem a Sua igreja. Dons para servir e, entre eles, o pastoral. Porque recebi este e não aquele não é uma discussão coerente, nem cabe no Mistério. O que olhando para trás percebo é que Deus conhecendo minha personalidade e, tecendo o tempo de outras pessoas e igreja, produziu um Kairós inegável, arrastando com seu vento tudo e todos que estavam no caminho. Foi irresistível para mim e para os que estavam em São Paulo em 1999.
Agora, não é tranquilo ser mulher em nossa sociedade sexista, nem pastora em uma denominação com duplo discurso sobre nosso valor e o que podemos ou não. Daí que algumas escolheram um caminho mais combativo. Nessa visada do passado, acho, inclusive, que as "armas" na minha mão não receberam a desaprovação divina; talvez, nem mesmo o silêncio de outras companheiras. Por isso, cada avanço é importante. Cada "desarmamento" do espírito deve ser celebrado. Cada porta aberta, um grito de alegria.
Que os presentes na assembleia deste ano da Graça do Senhor sejam testemunhas do fim de mais esta barreira humana para o exercício pleno da vocação pastoral das mulheres batistas do Brasil.

Pra. Silvia Nogueira

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

mistura de ano novo, parte 2

No texto de Mateus 14, 13 e ss é Jesus quem se retira para um lugar afastado. O ambiente desta ação não tem a ver com a jornada de trabalho evangélico dos discípulos, mas com aquilo que Jesus ouviu. Isto é, ele havia sido informado da morte de João Batista. Sua retirada de “cena” por um pouco tempo parece ter sido motivada pela tragédia de João, pelo luto. Eu acredito que os evangelhos apresentam um desenho de Jesus como um homem profundamente sensível às questões sociais e políticas, além das religiosas. Jesus certamente, segundo Mateus, precisou  de um tempo. 
De quantas tragédias nós fomos testemunhas até agora? Opressão financeira, pobreza, alagamentos em cidades mal cuidadas e planejadas, sequestros, pedofilia, assassinatos de mulheres por namorados, maridos, ex-maridos, corrupção em todas as instituições, fundamentalismos homicidas, tanto horror colocando em xeque nossa humanidade e sanidade. Às vezes, é preciso pegar um barco e sair um pouco.
Mas nós voltamos ou, quem sabe, as pessoas voltam para nós, nos alcançam. Talvez estejamos diante de um ciclo de vida. De ministério. Talvez. Fato é que em todos os textos  (Marcos, Mateus, Lucas 9,10ss e João 6, 1-14) o que se segue ao processo de recomposição do corpo e do espírito é uma obra de compaixão e misericórdia. Um serviço, portanto. Um servir de novo com a alma renovada, disposta a mais algumas léguas até um outro tempo de repouso.
Seguir os passos de Jesus é ato de coragem. Mesmo os fracos, podem encontrá-la pelo caminho.

Uma semana benta!

Pra. Silvia Nogueira

mistura de ano novo, parte 1

Os evangelhos são um conjunto de histórias que circulavam na memória dos discípulos e discípulas de Jesus Cristo e foram posteriormente fixados por escrito. A organização "cronológica" dessas narrativas, assim como as suas intenções teológicas e pastorais, dependeram de cada uma das quatro comunidades e personagens envolvidos na sua preservação (Marcos, Mateus, Lucas e João). Por isso, observar como algumas histórias estão colocadas no texto bíblico trazem muito mais "calor" a nossa leitura.
Ainda sob a inspiração do ano findo e do meu sabático, compartilho uma história dos evangelhos que balizou minha decisão. O proto-texto é Marcos 6, 30 e ss. Nós geralmente concentramos nosso olhar na experiência coletiva da multiplicação dos pães e peixes ou de como Jesus e os discípulos alimentaram mais gente do que parecia humanamente possível. Mas me interessa muitíssimo o que está na introdução dessa maravilhosa experiência de compaixão. Nos versículos 7 e ss.do capítulo 6, lemos que Jesus enviou os doze para fazerem sem ele a tarefa de pregação e alívio das dores do povo. A história de João Batista interrompe essa sequência e a retomamos no versículo 30 quando estes mesmos doze contam a Jesus tudo o que tinham feito e ensinado. Ao ouvir seus apóstolos, Jesus faz algo até então despercebido para mim. Ele diz textualmente: " Venham aqui à parte, a um lugar deserto (leia-se , sem pessoas), e descansem um pouco. " Para clarear ainda mais a necessidade desse tempo de descanso sem gente, o versículo continua com a justificativa:" porque fazia muito tempo que iam e vinham, sem tempo até para comer". E o texto continua dizendo que foram sozinhos, portanto, para um lugar deserto. Nossa sociedade despreza o ócio, olha com desconfiança/menosprezo para o desejo ou a necessidade do descanso. Esta sociedade teme ser obsoleta!
Se deixarmos, entramos nesse mesmo espírito do tempo. Acrescentando a isso a ideia de que , como escolhidos por Deus, devemos ser incansáveis. Já pensei assim, já me cobrei muito por isso, mas estes poucos versículos me deram uma nova perspectiva.
É claro que a multidão os seguem, procura por eles, têm necessidades. A multidão sempre terá necessidade, carências a serem supridas. A vivência cristã no mundo sempre produzirá solicitações imperativas, mas Jesus olhou para seus discípulos  e verificou que depois de tanto fazer e ensinar, é necessário, nem que seja um pouco, descanso no deserto.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

em defesa do sabático

O tempo cronológico não tem nenhum poder sobre o que vai dentro da gente. As nossas "questões" são tecidas em outros ritmos; outras psicologias. Logo, estipular um tempo para o descanso é uma formalidade de calendário e uma disciplina autoimposta sobre as tão preciosas agendas de nossas vidas. Tem a sua utilidade, mas não define o resultado.
O timing do meu "ano sabático" terminou no dia 31 de dezembro de 2013, mas não as ruminações que me levaram até ele. Como foi importante ter desfrutado desse tempo sozinha, sem as múltiplas solicitações da vivência pastoral e religiosa. É uma sandice que recomendo para todos nós que lutamos pelas causas da justiça e da liberdade, mas principalmente para os que servem aos outros como líderes.
Creio que foi a maturidade que me fez perceber objetivamente como é fácil se perder do caminho que trilhamos e de como é fácil mascarar a perda de nossa potência de misericórdia e serviço aos outros com a dissimulação do nosso discurso.
Sim, é muito fácil nos perdermos de nós mesmos e produzir desculpas por ignorar aquilo que realmente é importante!
Essa obviedade promoveu o meu desejo para o sabático. Outras questões, menos óbvias, foram se delineando sobre a terra como tesouros arqueológicos. Camadas de tempo e esquecimento sobre eles :
1. quem luta, cansa. pergunta-se em algum momento pelo sentido da luta, deseja reconhecimento e avanço.
2. sucesso e fracasso são duas dimensões relativíssimas e subjetivas de um ser humano consciente.
3. é preciso perseguir o que nos inquieta, mesmo com medo.
4. nenhuma resposta será percebida com clareza se não soubermos o que perguntar.
5. fazer as pazes com o passado é um imperativo! sem isso, o presente é um fardo.
Os rumos deste novo ano estão rascunhados. Resolvi viver à lápis!

Um bom e bento 2014!
Pra. Silvia Nogueira