As opiniões deste blog não representam, necessariamente, o conjunto dos pastores batistas: homens ou mulheres.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Atrevimento






Os gregos têm muitas excelentes histórias para falar sobre como os seres humanos tentam sobrepujar e ludibriar os deuses. É uma espécie de "jeitinho" humano para tomar em suas mãos as rédeas do seu destino. É igualmente uma forma de narrar uma realidade inquestionável, a  de que os seres humanos são responsáveis pelas suas próprias histórias.
Mas há o Mistério...
Para aqueles que o tangenciaram na história da humanidade (porque ninguém é capaz de enxergar ou entender todo o Mistério), o que somos e o caminho a percorrer com nossas vidas está marcado com a consciência de que não estamos sós na condução de nossas existências.  Para nós, Deus é uma realidade! Mas queremos sempre sobrepujá-lo ou enganá-lo, como pobres mortais.
Gosto de Paulo. A leitura das cartas paulinas é sempre um momento de descoberta. Em especial, 2 Co 3-4. O contexto é o da crise interna da igreja de corinto e de um certo mal-estar com a condução pastoral de Paulo. Mais uma vez ele se defende, argumenta sobre a legitimidade da sua vocação e faz algo que cada vez mais parece necessário àqueles que conduzem suas lideranças fora da padronização e ajustamento dos paradigmas de sucesso e prestígio em qualquer momento ou lugar: a defesa do valor daquilo que realiza. 
No final das contas, não há como mensurar o alcance do nosso legado. Mas precisamos de sinais de sua validade. Precisamos, como Paulo, às vezes, ou sempre, justificar-se. Nesse processo podemos ser atrevidos, como é próprio de nossa natureza, e proclamar que o mérito é sempre nosso. Que tudo o que fizemos de bom ou de positivo no presente e para o futuro é resultado somente de nossos esforços e de nossas habilidades. Mas nós não somos este tipo de humano. Nós, como Paulo, acreditamos no Mistério!
E é uma convicção que acompanha o crente. "Não nos atreveríamos a pensar que essa obra (ministério) é devida a algum mérito nosso; pelo contrário, é de Deus que vem nossa capacidade". 2Co 3,4.
Penso como Paulo de que a forma visível de experimentar essa presença divina na condução de nosso destino, não é como muitos pensam, a privação da responsabilidade e liberdade individual, mas a presença ora sutil, ora estridente, daquela força a mais, daquele fôlego a mais, daquela esperança a mais, daquela paciência a mais, daquela sensibilidade a mais, daquele insight a mais, daquela ousadia a mais, daquela coragem a mais, daquele entusiasmo a mais que fazem toda a diferença quando temos algo importante,  difícil ou necessário a ser feito. 2 Co 4,8-18.

Pastora Silvia Nogueira
    

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Machado e eu


Tenho particular admiração por Machado de Assis, escritor brasileiro do final do século XIX. Machado é quase uma unanimidade no mundo das letras por sua genialidade, comparado em grande medida a escritores como Eça de Queiros e Dostoiévski. Mesmo que os critérios para seleção de boas obras sejam da ordem do poder, como apontou Harold Bloom e tantos outros, na verdade, o leitor, de qualquer tempo, é quem no final pode dizer, a partir de questões muito subjetivas ou objetivas de identificação e solicitação, qual obra ou autor deve ficar para a posteridade como "grande". Sem leitores, a obra é morta. Aliás, como as línguas humanas: sem falantes, não há língua.
Bom, Machado é para mim "grandioso". Por quê? porque sou professora de literatura? Não mesmo. Por que quero impressionar quem me ouve/lê, bancando a politicamente, ops, literariamente correta?Mil vezes não. O motivo é simples, como o são todas as coisas que realmente importam. Machado reflete uma certa melancolia que me encanta e um espírito que oscila entre a força e o desânimo. Tão parecido com meus sentimentos sobre tudo ... 
Divido a frase de Bento Capitolina em Dom Casmurro que não me sai da cabeça há dias: "[...] o interno não aguenta tinta". Mais uma das frases ácidas dos personagens machadianos, uma especie de conclusão sintética destruidora de qualquer esperança após alguma narração introspectiva da personagem. Nessa em questão, Bentinho é um "velho" que quer se justificar diante do leitor. Suas conclusões são difíceis. Não é possível recuperar o passado. Retomar sentimentos e experiências que ficaram para trás. "Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente". E conviver consigo mesmo é uma realidade às vezes penosa. Podemos enganar os outros, lidar com a perda daquilo que é externo a nós, podemos, ainda, fantasiar e disfarçar uma série de coisas, mas é impossível, segundo Bentinho, enganar-se, pois não há tinta interna que mascare o que realmente somos aos nossos próprios olhos.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A beleza da Baía da Guanabara



A Baía da Guanabara é linda !
de todos os lados,
apesar dos seus lados,
é bonita demais de se ver.
Imagino a Baía há anos,
em tempos de índios livres
cor azulíssima, golfinhos prenhos 
aguardando a vida
nessa mesma baía, agora, aviltada
pelo lixo seu e meu, pelo descaso das gentes.
Mas ela se mantém bela,
esse desconcertante mistério da Criação,
desafiando o tempo dos homens
rindo daquilo que achamos poder fazer.
Mesmo sem vê-la, eu a amara
amaria a baía
abrigada no colo da Guanabara.