As opiniões deste blog não representam, necessariamente, o conjunto dos pastores batistas: homens ou mulheres.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Dia internacional da mulher.



 Uma mulher de família

 _ Mãe, posso ir na casa da Fatinha?
 _ Já fez o dever ?
 _ Ah! mãe, faço depois. Deixaaaaaaaaaaaaa...
 _ Vai, então, mas não demora, se não eu vou te buscar!

Coração acelerava, sorriso no rosto e lá ía eu correndo pra casa da minha amiga de infância Fatinha. Fátima, inclusive e dolorosamente, vítima do mal de "amor" cafajeste que aleija ou mata muitas mulheres, daria uma história d'a vida como ela é". Presto agora minha homenagem a todas as mulheres que sofreram nas mãos de parceiros menos homens do que julgavam ser. Mas  como toda criança, adorava fugir das tarefas e sair de casa. O retorno depois da brincadeira era sempre bom. Leite quente com café, pão francês com manteiga e a cotidiana cena de minha mãe passando roupa escutando programa do Josias Menezes, "Esse é seu hino preferido". Como era gostosa a rotina da minha infância, a alienação do mal deste mundo por conta da certeza da proteção de minha mãe. "Eu vou te buscar"! Até hoje tenho este estranho e caloroso conforto dentro de mim de que ela me encontrará. Eu não repetiria a história de João e Maria. E definitivamente não repetiria, se eu assim não quisesse, a história de muitas marias apequenadas pelo medo, humilhadas e oprimidas pela vida. Ela quis pra mim o que ela mesma não teve. Ela lutou contra si mesma e contra todos para achar este lugar que hoje ocupa na história de tantas pessoas cuja vida ela alcança e abençoa como exemplo de ser humano. 
Sem dúvida nenhuma , sou hoje o que ela forjou em mim. Com a certeza de sua proteção, enfrento meus medos. Com a sua história de vida, luto pra achar meu próprio lugar na vida e na história.

 Mesmo hoje, meus pais, quando caminham juntos, a mão dela repousa sobre os ombros dele. Gosto demais dessa imagem. Já presenciei momentos difíceis, de luto, de doença em que a primeira reação de minha mãe é buscar o ombro de meu pai. Acho que esse gesto tem duplo sentido. O primeiro: ela diz sem dizer: "estou aqui, meu marido, conte comigo!" e o segundo: "me sustente, por favor!". Essa força e fraqueza são pra mim, a beleza de uma relação amorosa. 

Herdei de meu pai uma teimosia petulante. Para o nosso bem, e o nosso mal, somos obstinados em teimar. O mal advindo da teimosia, todos já sabem, mas foi o seu aspecto positivo que me fez sobreviver emocionalmente as minhas lutas até aqui.
 Também herdei dele uma melancolia, um banzo, uma saudade de ausências que torna minha existência mais profunda e, no entanto, serena. 
É a face de mim que faz com que eu não me perca de mim mesma.
A mulher que sou nasceu desses dois seres tão opostos. Gente do campo, trabalhadora, honesta, simples. Sou resultado da contradição de minha mãe e meu pai, da dialética de respeito ao outro que eles construíram e da qual eles não se dão conta que são militantes. Até minha faculdade, eles nunca tinham escutado sobre as teorias que envolvem a desigualdade de gênero; até o dia do meu concílio, e o que se seguiu, eles nunca tinham visto de perto a violência oriunda da desigualdade de gênero. 
Todos nós mudamos. Eles, eu, minhas irmãs e sobrinhas. Como diz o texto, já não éramos mais ignorantes do que acontecia conosco e ao nosso redor. Meu pai, gaiato, vive dizendo que sonha o dia do meu casamento, quando um príncipe no cavalo branco chegará...Ele fala rindo, pra depois rapidamente retificar: "Tô brincando, sei que é difícil pra você encontrar um homem que te entenda". E eu respondo sob a aprovação silenciosa de minha mãe: "Pôxa, pai, é tão difícil assim?" 

Minha solidariedade a todas as minhas irmãs no mundo. 
Que Deus nos ajude a transformar o difícil em fácil".


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