As opiniões deste blog não representam, necessariamente, o conjunto dos pastores batistas: homens ou mulheres.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Recuperando um texto de 2011

Carta Aberta as Pastoras Batistas

Caríssimas irmãs, servas de Jesus Cristo e de sua Igreja,

Quero compartilhar o atual momento da relação mulheres e ministério batista em nome das mulheres batistas ordenadas ao ministério pastoral. Começo por compartilhar um texto que fala muito ao meu coração. Quando abrimos o texto bíblico, poucas vezes escolhemos narrativas em que o personagem é feminino. Acredito que isso seja um reflexo da nossa educação teológica que favorece e privilegia um anonimato feminino nas questões do texto bíblico. É quase como se não existissem lições a aprender com as mulheres na Bíblia. Obviamente, isso é um erro. Tento resgatar essa voz, sempre que posso, nas minhas pregações pelo país. Então, naturalmente, os textos em que as mulheres protagonizam sempre me solicitam. É o que acontece com Marcos 14,3-9. Prefiro a narrativa de Marcos a de Mateus e João por dois motivos: o primeiro, por ser Marcos o evangelho escrito mais antigo; o segundo, porque a mulher nesse evangelho não tem nome e o evangelista faz questão de explicar aos leitores que Jesus disse (v.8) que ela fez o que estava nas suas mãos para fazer com uma finalidade profética.
A lição hermenêutica propõe que diante de um texto dos evangelhos, devemos encontrar a pergunta geradora da história narrada, isto é, recuperar a pergunta que originou na vida da comunidade a reunião daquelas histórias sobre Jesus em detrimento de outras. Diante de Marcos 14, a pergunta “provocadora” da história pode ser recuperada pela finalização dada por Jesus. Jesus ensina a todos os presentes, na casa daquele homem considerado impuro, que o feito da mulher, deveria ser lembrado em todos os lugares onde as boas novas do Cristo fossem anunciadas. A história, então, foi contada por causa de um pedido de Jesus: preservar os feitos da mulher que o serviu de forma tão generosa e profética. Talvez a outra pergunta necessária seria, por que para Jesus era importante construir essa memória? Vocação, ministério, é serviço. Mas também é movimento. Mover-se, desinstalar-se é condição necessária ao exercício de nossas vocações e ministérios. Jesus diz aos seus outros discípulos e ao anfitrião do jantar que aquela mulher havia lhe servido, realizado uma boa obra. E as obras que as mulheres executam no Reino em geral sofrem com a crítica, o desrespeito e as proibições colocadas pelos discípulos do Senhor, mas não pelo Senhor. O Senhor Jesus tem nos garantido o espaço para servir. Por muito tempo, descansamos nessa verdade sublime. Mas chamo a atenção para o fato de que essa lição está incompleta. O que Marcos não pode deixar de registrar como resposta a segunda pergunta é que Jesus censura os que não entenderam, criticaram e tentaram impedir a boa obra daquela mulher e isso também deve ser lembrado para que não se repita de novo na igreja do Senhor. Mas tem se repetido. E se o gesto da mulher foi profético para anunciar a morte do Cristo e sua ressurreição, foi igualmente profético na coragem de servir e construir uma memória sobre seu feito e sobre a tentativa de proibição censurável dos discípulos de Jesus.
Escrevo para celebrar a memória dos seus feitos, minhas irmãs, nos campos missionários, com a ousadia profética e com a vontade de servir - cumprindo a missão que receberam e as movimentam. No entanto, escrevo também para dizer-lhes da outra memória que o texto aponta: a ação dos discípulos de Jesus em criticar, em tentar silenciar e invalidar o gesto daquela mulher, foi censurada pelo Mestre no passado e continua sendo censurável. E Deus nos convoca também a fazer algo sobre isso. Por exemplo, há 11 anos existem pastoras ordenadas em igrejas batistas filiadas à CBB e pouca gente sabe disso. Os canais oficiais da denominação quase não dão visibilidade a esse fato. Quando o fazem geralmente é para apresentar as vozes de discípulos que criticam ou deslegitimam os ministérios dessas mulheres. Outro exemplo, atualmente, a ordem dos pastores tenta impedir novas ordenações femininas ao ministério pastoral, não recomendando a participação de pastores filiados no exame conciliar convocado pelas igrejas batistas. Mais outro exemplo: alguns discípulos tem construído um discurso de que as pastoras são ordenadas apenas para a igreja que solicitou sua ordenação, ou seja, elas não são pastoras do ministério batista. E ainda outro: o silenciamento na educação teológica da possibilidade das mulheres que fazem teologia serem também pastoras ao final do curso, caso tenham essa vocação. E um último exemplo conhecido de todas: o desprestigio do trabalho missionário realizado pelas mulheres, seja em salários menores, seja no limite da atuação ministerial, seja ainda na altivez de pastores no tratamento com as missionárias. Sei que muitas de vocês não enxergam em si mesmas a vocação pastoral. Sei que muitas já enterraram essa identificação por temer causar qualquer tensão na denominação. Sei ainda que muitas esperam uma declaração oficial sobre o assunto. Nesse último item, afirmo: a CBB jamais poderá normatizar/oficializar a ordenação feminina, como jamais normatizou/oficializou a ordenação masculina, já que a ordenação ao ministério da palavra é prerrogativa da igreja e não da CBB. E já somos tantas, de diferentes idades, condição econômica, localização geográfica, estado civil, entre outras diversidades.
O que pode ser feito para tranqüilizar processos é justamente o motivo desta carta longa, mas necessária. O que pode fazer com que vocacionadas ao ministério pastoral se sintam mais seguras na vivência de suas vocações, em campos missionários ou não, é o fim da critica, do silenciamento e das tentativas de proibição operados pela ordem dos pastores.
Uma das estratégias que imagino para isso é uma presença, ostensiva, corajosa e profética na próxima assembléia da Convenção Batista Brasileira, no Paraná. O que estou lhes pedindo, queridas irmãs, é envolvimento. Envolvimento com suas orações, com seu discurso inclusivo e educativo, discurso que anuncie essa memória, com sua presença física na assembléia ou online no nosso blog quando for a hora - ao final do jantar. Não é obra de uma mulher apenas, minha ou de outra qualquer, mas é uma obra, coletiva, comunitária, representativa de todas nós que servimos a Jesus derramando nossas vidas sobre Ele. Estamos nos organizando para respaldadas na fala do próprio Cristo celebrar o que Deus tem feito na vida das mulheres batistas em ministérios, ordenados ou não. Esse é o nosso legado ao futuro. 



Esse texto foi enviado em 2011 para muitos emails de pastoras e missionárias. A intenção era a de que usássemos o blog das pastoras batistas da cbb para dar visibilidade a todas elas.

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