As opiniões deste blog não representam, necessariamente, o conjunto dos pastores batistas: homens ou mulheres.

domingo, 22 de junho de 2014

A Rosa morreu

Rose Marie Muraro morreu ontem, dia 21, no Rio de Janeiro. Talvez você não a conheça, mas sua presença pode ser sentida toda vez que pensamos nas relações desiguais entre homens e mulheres dentro e fora da religião.
Hoje, nós religiosas, deveríamos considerar a seguinte frase de Rose: "Educar um homem é educar um indivíduo, mas educar uma mulher é educar uma sociedade inteira."

sábado, 21 de junho de 2014

Ordenação de mulheres entre os Batistas brasileiros, uma história em construção



Encontro de pastoras em Niterói, RJ
 Em 10 de julho de 1999, acontecia em um eletrizante e histórico culto na periferia de São Paulo, capital, minha ordenação (ou consagração) e posse como pastora titular da PIB em Campo Limpo, uma igreja Batista filiada à Convenção Batista Brasileira.
1999 foi um ano divisor de águas na denominação Batista e na minha vida pessoal. O concílio público foi realizado no dia 26 de junho de 1999, um dia após meu aniversário de 30 anos. Já não era uma jovenzinha, mas a maturidade necessária para enfrentar aquele ano foi sendo ganha aos poucos. Até hoje é impossível esquecer - e não devo - como a decisão de uma comunidade pode transformar toda uma realidade.
Quando a PIB em Campo Limpo instaurou o processo de sucessão pastoral não imaginávamos até onde chegaríamos e o quanto esse caminho poderia ser revolucionário na realidade denominacional.
Engana-se quem achou que sabíamos o que viveríamos, os enfrentamentos , as perseguições, as perdas, os ganhos, a compreensão histórica, entre tantas coisas vividas por mim e por eles e elas, irmãos e irmãs dessa corajosa e batista igreja periférica da capital. Fomos como Maria e Moisés, compreendendo gradativamente e agindo corajosamente na superação dos obstáculos do caminho.
Sou imensamente grata a Deus por viver seu kairós, imensamente grata a Campo Limpo por ratificar minha fé na comunidade e no seu poder. Imensamente grata a amigos e companheiros/as que me sustentaram, motivaram, desafiaram, criticaram, mas que sempre de alguma forma , entenderam que eu poderia viver aquele momento. Gostaria de citar todos, mas cito agora apenas o pr. Antonio Carlos de Mello Magalhães.
pastores da PIB em Campo Limpo, SP

Essa é uma história em construção, sendo escrita. Não há, ainda, nenhum livro ou texto que dê conta do passo a passo até aqui.
No ano de 2016, temos um projeto em parceria para registrarmos essa e muitas outras histórias de vocações pastorais exercidas por mulheres no Brasil Batista .  Até lá, vamos reunindo os textos. Alguns com informações corretas, outros, nem tanto, mas todos compõem os fios a serem tecidos por nós, pastoras batistas do Brasil, na preservação de nossa memória.

domingo, 15 de junho de 2014

de grão em grão

Capa do meu primeiro livro 

No facebook, Pr. Edvar Gimenez comentou sobre um livro "libertador" no início de sua formação teológica. História boa que me fez lembrar da minha própria lista de livros "perigosos". Podem ser considerados por alguns dessa forma, porque funcionam como fármaco, isto é, adoecem a gente, revelando nossas enfermidades intelectuais, para depois nos curar/libertar.
Lembrei de uma definição de leitor que conheço. O leitor é um "ladrão", pois recolhe sem grande esforço o que outros plantaram e acumularam e transforma em coisa sua. Gosto dessa definição, pois me sinto um pouco assim. Apropriando-me, mesmo que do meu jeito, nas minhas ressignificações e  seleções, da fortuna alheia. De grão em grão, na intenção de me saciar em algum momento.
A imagem dessa postagem é a capa do meu primeiro livro. Lido com avidez aos sete anos. Está comigo hoje, porque minha mãe guardou e tive a sorte de reencontrá-lo. Ele me fez sentir como a menina do conto magistral de Clarice Lispector "Felicidade clandestina".  Desde que o ganhei, alguns livros eu abraço contra o peito, extasiada e liberta como na primeira vez.

sábado, 14 de junho de 2014

O coração cheio, mas a boca em silencio

O texto de Lucas 6 é conhecido. Um daqueles ensinamentos proverbiais tão caros ao mestre. O homem bom tira boas coisas do coração e o homem mal, tira coisas mas. É difícil enganar a nós mesmos e aos outros quando, por exemplo, no meio de uma conversa, falamos algo que ofende  nosso interlocutor. Apesar das regras de civilidade que organizam nossas relações, o que vai dentro de nós, teima em escapar. Isso serve para coisas boas também. Recordo-me da primeira vez que confessei amar alguém, olho no olho, inesperadamente. As nossas verdades escapam com certa freqüência.
Jesus lembra que o que dizemos é reflexo do que pensamos e sentimos. E, obviamente, precisamos qualificar nossa reflexão e cultivar bons sentimentos para que haja uma sintonia boa entre o que somos e aquilo que dizemos ser e fazer.
A frase-resumo "a boca fala aquilo que o coração está cheio"  serve igualmente para pensarmos por outro viés. Verbalizar é algo maravilhoso, um presente. As mulheres tendem a ter mais facilidade para isso, porque investem mais tempo em entender o que passa dentro de si.  O processo de reflexão se completa quando falamos.
Bom, algumas vezes isso também é um problema, pois não verbalizamos o que vai dentro de nós. A pergunta que me motiva é por que calamos? Por que não dizemos sempre aquilo que precisa ser dito?
Sei das estruturas culturais que sonegam nossas vozes, mas acredito que o silêncio é resultado de um acordo ou conivência com aquilo que nos cala.

domingo, 8 de junho de 2014

Javé é um Deus que sabe

Certa vez, no dia do pastor(a), os irmãos de minha igreja lembraram-se que pastor também é ovelha. Na simplicidade dessa metáfora reside uma verdade às vezes cuidadosamente negligenciada por nós ministros. Nossa função não tem a centralidade que pensamos, pois estamos todos na mesma condição diante de Deus.
A discussão em 1Sm sobre a necessidade ou não da monarquia em Israel é suplantada pela afirmação de como deverá ser esse rei, qual seu compromisso vital. Para Samuel, o rei é Javé, os monarcas humanos devem representá-lo, ou seja, torna-lO presente. Nós pastores (as) não somos Reis, muito menos tiranos , espero, mas somos líderes do povo com o compromisso vital de tornar Deus presente em nossas vidas e comunidades de fé.
No maravilhoso e engajado cântico de Ana (1Sm2,1-10), os atributos de Deus são impressionantes. Nossa pequenez de ovelha desconhece a complexidade da existência e os caminhos da história, mas cremos, como Ana, que Javé é Deus que sabe. O que Ele sabe, vamos compreendendo aos poucos. Por isso, o esperado é ficarmos mais sábios. Como disse a um colega no dia de sua ordenação: tudo muda, nada muda. Nós continuamos com nossas limitações pelo pouco que sabemos, mas Deus trabalha conosco, e em nós, para sairmos da ignorância em direção ao que Ele sabe.

domingo, 1 de junho de 2014

seus olhos amorosos sobre mim


Em Tiradentes, há uma igreja cristã com uma escultura do rosto de Jesus feita por um mestre barroco no arco da entrada principal. A intenção do artista era criar uma ilusão de ótica. De qualquer lugar que você olhasse, tivesse a sensação de que os olhos do Cristo estavam te fitando. 
Quando na igreja de minha infância cantavam o amedrontador cântico "...o Salvador do céu está olhando pra você, cuidado mão, olho, boca , pé  o que fazem", não tinha ideia do quanto o Salvador poderia ser amoroso e não necessariamente um vigilante implacável das minhas ações. 
Não quero fazer você pensar que não reconheço a face da justiça divina, reconheço-a sempre; convido-a, sempre que me dou conta do algum mau comportamento, para conversar comigo e me colocar no prumo ético de Jesus Cristo. Mas há muito tempo que, para mim, a face de Jesus tem tanta vida, tanto calor e amor que mesmo sua justiça é um misto de misericórdia e compaixão. Isso ajuda muito mais a viver responsavelmente a fé do que as ameaças do fogo do inferno.
Neste domingo ensolarado no Rio de Janeiro, de qualquer lugar que eu olho, Jesus de Nazaré me devolve o olhar, com misericórdia e compaixão.