As opiniões deste blog não representam, necessariamente, o conjunto dos pastores batistas: homens ou mulheres.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Pátria Minha

Depois de assistir a propaganda eleitoral, sonhei com Vinícius

Livro - Poemas, Sonetos e Baladas & Pátria Minha

A minha  pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.
Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.
Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!
Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!
Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.
Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu…
Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!
Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.
Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.
Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!
Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão…
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.
Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.
Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

no meio do caminho tinham umas pedras...

https://bipolarcentrada.wordpress.com/2014/02/
Marcos 10, 32-45

A vontade de Deus nem sempre é nebulosa. Experimentamos e entendemos Deus aos poucos, mediante a abertura para entender e experimentar. Talvez seja essa gradativa (ou circular ou espiral) compreensão daquilo que Deus quer o fator mais inquietante da nossa experiência cristã, pois nos pegamos desejando que Ele escrevesse em letras garrafais e neon qual é o próximo passo. 
Tenho crido que a vontade de Deus em sentido amplo está harmonizada com a imagem que Jesus de Nazaré constrói sobre seu Pai. Liberdade ética, vivência responsável e comprometida com o próximo, amor, perdão, esperança e luta pela justiça são capilaridades dessa imagem. Traduzir essa complexa imagem identitária de Deus para as nossas relações e decisões nos coloca em consonância com a sua "vontade". 
O texto de Marcos 10, 32-45 é um convite para pensar sobre nossa caminhada à luz da imagem construída por Jesus, atendendo às expectativas dele a nosso respeito como discípulos e discípulas.
Jerusalém, para onde Jesus e os discípulos caminham, é a parada final para o Mestre. A essa altura, ele se prepara, e aos seus discípulos, para a consequência dos anos de ação e pregação do Evangelho do Reino. Ele conhece a resistência individual e coletiva às mudanças na ordem social e pessoal. A revolução interna e ética proposta é mais perigosa do que espadas. O mundo(oikos) não acolheu a mensagem de Jesus e o caminho esperado é a eliminação do portador (es) desse discurso.
O texto apresenta o medo e o espanto dos discípulos nessa jornada e o destemor e arrojamento de Jesus à frente deles. Cumprir a vontade de Deus tem consequências,  nem sempre positivas. Apesar desse cenário desfavorável, não cabe a disputa pelo poder interno, não cabe o desejo de se assenhorar do caminho, não cabe utilizar as armas e estratégias vigentes se elas estão a serviço da opressão e em desarmonia com a vontade de Deus. Cabe a clareza e determinação de Jesus em ir na direção da vontade de Deus, porque ele já está nela. Essa consciência produz a esperança na ressurreição, esperança no poder da vida sobre a morte. 
Entre nós, não deverá vigorar a lógica materialista, opressora, capitalista. Entre nós, o desejo de servir é, em última instância, o resumo daquilo que Deus espera de nós.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

é importante falar das pedras



"Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra. -  Mas qual é a pedra que sustenta a ponte? - pergunta Kublai Khan. - A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra - responde Marco , mas pela curva do arco que estas formam. Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta: - Por que falar das pedras? Só o arco interessa. Polo responde: - Sem pedras, o arco não existe."               Ítalo Calvino, "As cidades invisíveis".
A realidade esconde complexidades. O todo não existe sem as partes. A superfície mais lisa, guarda inúmeros detalhes. Um naco de unha, abriga milhares de átomos. Tudo tão rico e importante!
Em uma cultura de resultados e aparências, como a ocidental, só o arco interessa. Ou ainda, o produto final, desvalorizando processos e percursos pessoais e institucionais.
Podemos nos enredar nessa lógica míope e viver em constante frustração, acreditando nas sandices dos profetas do deus deste século. Um explorador do passado imaginava a conexão entre as terras, pessoas e coisas, que o processo é importante, que existe valor no empilhamento de cada pedra singular.
Na megalomania dos resultados espetaculosos, o simples perde seu valor.  O humilde é desalojado! A vida perde!

domingo, 10 de agosto de 2014

útil para si mesmo



A palavra é o princípio de qualquer obra e, antes de agir, é preciso refletir. A raiz dos pensamentos é a mente, e ela produz quatro ramos: bem e mal , vida e morte. Mas os quatro são dominados pela língua. Existe quem é capaz de instruir muitas pessoas, mas é inútil para si mesmo. Eclesiástico 37, 16-19
Algumas pessoas distinguem a sabedoria humana da sabedoria divina. Como se elas não pudessem se misturar em algum momento ou mesmo se alimentar uma da outra. O sábio corre o risco de se enfadar de vez em quando a vida, pois quem conhece não pode deixar de se responsabilizar.
O texto do Eclesiástico, inspirado nos ensinos de Jesus Ben Sirac (século II a.C.), segundo a Tradição,  é repleto de ponderações sobre a vida na sua totalidade. Ele propõe a necessidade de refletir antes de agir. Na mediação entre reflexão e ação, está o discurso. O discurso pode refletir o bem e a vida ou o mal e a morte. Obviamente sem dualismos excludentes, porque parece que o ser humano transita entre uma realidade e outra, escolhendo, ora  o bem, ora o mal; rendendo-se à vida ou a morte.
A sabedoria (humana ou divina) passa necessariamente pelas melhores escolhas, aquelas que promovem a vida e o bem. Na dinâmica da vida, é muito mais fácil solicitar uma atitude sábia dos outros. O problema se instala quando nós precisamos fazer uso do que sabemos e ensinamos. Quando nós mesmos precisamos escolher entre o bem e o mal, entre vida e morte nas 24 horas diárias.


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

espera um pouco, Jesus

disponível em:http://tempodeviver2.blogspot.com.br/2012/04/jogo-minha-rede-no-mar-da-vida-e-as.html

Ao passar pela beira do mar da Galiléia, Jesus viu Simão e seu irmão André: estavam jogando a rede no mar, pois eram pescadores. Jesus disse para eles:"Sigam-me, e eu farei vocês se tornarem pescadores de homens". Eles imediatamente deixaram as redes e seguiram a Jesus.
             Evangelho de Marcos 1,16-18

       Mesmo o mar da Galiléia pode ser assustador. "Água é bicho sem cabelo" , diziam os antigos com respeito. Tanta coisa pode acontecer nesse trabalho de enfrentamento do ser humano raquítico diante da força da natureza. No entanto, acorda-se bem cedinho, verificam-se as redes e depositam fé nos braços e nos cardumes. O mundo se resume ao trabalho e a luta diária pela sobrevivência. Nessa altura da vida, não há mais tantos segredos a desvendar, já acumulou-se muita técnica e maestria no labor. O terreno é velho conhecido.
     De repente, aparece um estranho que os vê de longe, trabalhando no ordinário da vida. Dirige-se a eles e os convida para deixar aquilo que estavam fazendo para fazer uma outra coisa, diferente do que conheciam. Utiliza uma metáfora para aproximar. Não há grandes explicações, nem palestra motivacional, nem aparência de sucesso. O que existe é um homem empoeirado, rosto plácido, familiar até, ordinário como eles mesmos. A oferta parece com aquilo que eles já realizam: pescadores! Mas existe um diferencial. O que vem pela frente é difícil de se trabalhar, traiçoeiro como o mar, complexo e desconhecido. Pescariam pessoas, não peixes.
    O extraordinário acontece. Nenhuma dúvida no coração. Nenhum temor sobre o futuro. Nenhuma dor pelo passado. Nenhum sentimento de perda. Eles imediatamente deixaram o que estavam fazendo e o seguiram.
   Por que ainda peço para que Ele espere um pouco? Deixa eu arrumar a casa, deixa eu me despedir dos meus, deixa eu construir alguma coisa, deixa eu ganhar um fôlego, deixa eu me recuperar da última empreitada, deixa eu...
   Espera um pouco, Jesus. Está difícil atender ao imediatamente. É muito imediato, urgente. Já não é o bastante seguí-lo? Já não é suficiente estar tão misturado às suas palavras e identidade? Não posso viver a fé no meu próprio ritmo?
   Parece que não. Algumas coisas não esperam. A vida em sua totalidade é urgente. A rede já foi lançada. É preciso pensar rápido, fortalecendo os braços e a fé nas pessoas.