As opiniões deste blog não representam, necessariamente, o conjunto dos pastores batistas: homens ou mulheres.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

DIÁRIO DO 2º CONGRESSO BRASILEIRO DE PASTORAS BATISTAS E VOCACIONADAS DA CBB




Dia 9

A chegada ao Acampamento Batista Capixaba foi como chegar a Betel. A casa de Deus, onde Ele mesmo deseja estar e onde nós, suas filhas, queríamos muito estar. Se no primeiro congresso, em Campos, a vontade de estar junto foi maior do que as adversidades, neste ano, as adversidades foram a mola propulsora da certeza de que deveríamos estar juntas, pois Deus mesmo estaria conosco. Que sensação maravilhosa!  
Como nada que realmente seja bom é feito sozinho, a recepção, a instalação, a organização das pastoras Edinara e Andrea Carinss foram excepcionais. Tudo feito com muito trabalho voluntário e muito, muito amor.
Pras Zenilda, eu, Andrea, Edinara
  
Longos abraços, os primeiros olhos marejados, a alegria superando o cansaço.




Pra. Edinara falou sobre nosso tema #EUDISSESIM , desafiando-nos na carta a Timóteo a ter certas qualidades fundamentais para o cumprimento de nossos ministérios.
Pra. Edinara Dutra, IB Vitória, ES
E a banda SAME? somente servas, meninas de Deus, talentosas, dedicadas. Tanto o nome (iguais) quanto a mistura de nossas histórias desde Campos têm feito dos momentos de adoração algo muito especial. Deus seja louvado pela vida da Pra. Raquel por ter colocado a banda SAME na nossa história. 
integrantes da Banda SAME

Dia 10

manhã

Noite de sono reparador e muita conversa. Foi a melhor ideia ter um lugar onde todas estivéssemos juntas nos 3 dias do congresso. Sem a generosidade dos pastores capixabas, tudo seria mais difícil.
Pra. Amélia, da cidade de Jales, interior de São Paulo, ministrou sobre como somos parceiras confiáveis de Deus.
Pra. Amélia, à direita
Talvez, por isso, estejamos todas envolvidas em um movimento de intercessão que também nos movimenta. Somos muito conscientes da dependência que temos da Graça de Deus.
guerreiras de oração


 tarde

Em cada momento de reunião há espaço para testemunhos e essa experiência tem aberto nossos corações para a identificação de nossas histórias, para a construção de um sentimento de sororidade que nos empodera.










T


Pras. Edinara, Eunice e Andréa


Tarde

No painel coordenado pela pra. Andrea Carinss, pastoras de vários estados responderam questões sobre a presença feminina na educação teológica e a construção de uma memória coletiva entre os Batistas sobre a consagração de mulheres ao ministério pastoral.

Noite



À noite tivemos a presença de pastores da região. Pr. Ebenezer, de Linhares, ES, foi o pregador da noite. Ficamos gratas pela Palavra de conforto e desafio.
Pr. Ebenezer e esposa

Finalizamos nosso culto com a Ceia do Senhor, ministrada pela pra. Maralúcia, emoção que não cabia em nós.

Pras. Andrea e Maralúcia
 Dia 11

Manhã de Domingo


Na força dos nossos encontros anteriores, decidimos que continuaremos por hora nossos ajuntamentos para encorajamento e cuidado. Em 2017, portanto, nos reuniremos na cidade do Rio de Janeiro.
Finalizamos nosso encontro com a palavra cuidadora da pra. Gleice sobre os novos arranjos familiares e a família pastoral.  
Pras Gleice, RJ e pra. Márcia , MT

A sensação na despedida e ainda agora é a mesma. O Senhor visitou suas servas e nos encaminha para o despertamento de vocações e para o exercício pleno do ministério pastoral nas igrejas de Jesus chamada Batista. Venceremos todos os obstáculos, porque Ele mesmo está conosco.
A Ele, pois, seja a Glória!



















quinta-feira, 8 de setembro de 2016

o medo das palavras

O medo das palavras é um medo antigo.
Palavras mudam realidades, causam revoluções ou as sufocam, promovem o bem ou o mal ou, ainda, uma zona indeterminada entre um pólo e outro da captura do Real.
Palavras nas mãos de idealistas, poetas e profetas, intelectuais e gente com poder, podem muito! Sim, podem muito!
Por isso, o medo das palavras é um medo antigo.
Um colega de ministério pastoral e amigo  tem escrito sobre "qual palavra você precisa para viver" , ideia extraordinária! pois coloca o leitor diante da reflexão sobre as palavras que amamos, precisamos, são inúteis ou tememos.
Nem sempre as palavras que tememos são ruins, trazem conteúdo negativo ou destruidor. Porque o medo não é apenas o medo do mal/mau. O medo tem muitas gêneses. 
O medo provocado pelo instinto de sobrevivência, pelo egoísmo e pela ganância às vezes temem palavras libertadoras. E o medo do desconhecido, então? o medo das mudanças que não controlamos e que irá nos desinstalar de alguma forma?
E o que podemos dizer do antigo medo das palavras que são utilizadas para rotular os sujeitos portadores de palavras divergentes?
 E, a mais terrível das reflexões, quando nós mesmos devemos nos questionar sobre o que fazemos com as palavras que escolhemos para viver, lutar e morrer.

Eu também tenho medo de certas palavras, mas das que eu não tenho - mesmo que causem a outros temor - elas parecem viver na minha garganta sempre dispostas a escapulir e fazer o percurso cuja volta é impossível.
O mundo foi feito pela linguagem. Este mundo continua sendo feito pela linguagem. Sou gratamente responsável por cada uma das minhas palavras, em especial, aquelas que incomodam a ponto de fazer ressurgir os antigos e autoritários medos.

sábado, 3 de setembro de 2016

Alguém segure essa ordem

Em tempos de retrocesso  travestido de avanço,  é oportuno olhar para a  história.
No dia 26 de junho de 1999 fui examinada por um concílio de pastores que atenderam a convocação da igreja local, na periferia de São Paulo, nas dependências da própria igreja.  Visto que,  até aquela época, pelo menos,  a tradição conciliar dos Batistas reconhecia que o exame e a futura consagração do ministro era um processo comunitário,  assessorado e não protagonizado pelo Colegiado de pastores Batistas. Fui aprovada pelos colegas.  Em 10 de julho deu-se minha consagração e posse como pastora titular daquela comunidade de fé.
De lá para cá,  tenho transitado, como pastora Batista que sou, em muitas outras igrejas para além da PIB Campo Limpo.
Muita coisa mudou desde então, com maior ou menor importância.
Com cada vez mais frequência, ouço um questionamento sobre a autonomia da igreja e a soberania da mesma em sua relação com as instâncias institucionais que o conjunto das igrejas criou e mantém.
Minha batistice não permite demonizar as instituições em si, mas se inquieta toda vez com  que percebe que as mudanças propostas têm a aparência do bem,  mas são, no fundo, e às vezes explicitamente,  a tentativa de controlar processos individuais e comunitários.
Tutelar ministros e ministras já é um negócio temeroso,  mas criar um imaginário de que é a única forma legitimamente denominacional de ser pastor /a Batista é vil. E está a serviço das capilaridades da cultura dominante: branca,  letrada e viril.
A cereja do bolo indigesto desse momento é ver como alguns estão cordatamente concordando com esse discurso e essa tutela.  Na contra-mão da crescente indiferença que os colegas ministros tem dessa tutela institucional para suas vidas e ministérios.
Sou e serei uma pastora Batista legitimamente denominacional, assim como muitas colegas que vivenciaram outras formas de legitimação comunitária. Então, não pretendo ser filiada à ordem.  Minha submissão irrestrita, no entanto, a Jesus Cristo,  a sua Igreja, aos princípios Batistas e a minha própria consciência.

sábado, 6 de agosto de 2016

Um olho na história, outro na vida


A história das mulheres em ministério é tão antiga quanto a própria história do Cristianismo. Infelizmente, essa memória não foi preservada da forma como deveria e merecia a ponto de se constituir o pano de fundo inquestionável do exercício pleno dos diversos ministérios existentes na igreja cristã atual.
Pra. Zenilda Cintra
O silêncio histórico e, mais objetivamente, o apagamento na história operado pelos discursos hegemônicos e oficiais, é uma estratégia velha conhecida do poder patriarcal. Observando a cena Batista brasileira, é fácil constatar a eficiência dessa estratégia. Por exemplo, ainda hoje não está registrado nas mídias sociais da OPBB a possibilidade estatutária de haver no meio pastoral Batista da CBB, a presença de pastoras filiadas à Ordem. Assim como não está presente no discurso oficial nessas mídias a menção à existência de pastoras e quantas secções - na decisão esquizofrênica de deixar que cada secção decidisse o que a instância nacional, em tese, havia decidido - já votaram favoravelmente à filiação das pastoras que assim desejam. Seguindo o mesmo exemplo estratégico, a menção à presença de mulheres ordenadas nunca é explícita nos meios oficiais da denominação.

O problema desse silêncio institucional é favorecer os desgastes pessoais, os enfrentamentos e, a mais nociva das consequências, retardar o exercício de vocações dadas por Deus às mulheres e ratificadas pelas comunidades de fé em todos os cantos do Brasil.

Mas, há uma outra estratégia ainda mais historicamente eficiente quando tratamos das mudanças de toda ordem: no comportamento, política, cultura religiosa, etc. Como as pessoas portadoras ou representativas do poder institucional, constrangidas pelas mudanças fomentadas pelos sujeitos que as querem, rapidamente tentam reter em suas próprias mãos os processos históricos em curso. Em geral, tutelando esses sujeitos que operam simbólica e praticamente a mudança.
Pastoras Mabel, Norma, Adriana e Jandira

Obviamente, nem todos os sujeitos envolvidos na construção das mudanças cedem a essa estratégia. E, logo em seguida, são rotulados como resistentes, rebeldes, agitadores, ultrapassados, e qualquer outra pecha que cause temor. No caso do atual processo histórico de ordenação de mulheres aos ministério pastoral entre os Batistas, a pecha de feminista e liberal.
Pra Silvia Nogueira

Uma rápida análise sobre o poder dessa estratégia concluirá que a institucionalização canhestra é, na verdade, o realinhamento do poder nas mãos dos que sempre o tiveram e que, por um momento, ficaram sem o controle do processo e de seus resultados.

As mudanças na forma de conciliar candidatos ao ministério pastoral, o discurso de que a submissão a esses novos processos e caminhos apontados pela OPBB é a única forma de ser pastor(a) Batista em consonância com as expectativas da denominação, alinhado com o crescente questionamento da autonomia da igreja local e do absurdo argumento de ministérios exclusivamente locais são o atual discurso veiculado nos bastidores e nas instâncias decisórias.

O que aquece a discussão agora, não é mais quem discorda ou é a favor do ministério pastoral exercido por mulheres, mas sim, na mão de quem estará as próximas ordenações/consagrações. 

A última estratégia histórica é a de semear o sentimento de não-identificação entre os próprios sujeitos que constróem a mudança. Téa Frigerio, teóloga italiana, vai afirmar que "para se sustentar, o patriarcado precisa criar e alimentar a inimizade entre as mulheres."

Discussão antiga sobre o porquê das próprias mulheres terem tão pouca solidariedade entre si. Como essa cultura promove entre esses sujeitos femininos uma crescente insensibilidade aos seus pares que sofrem as mesmas adversidades e necessitam das mesmas conquistas de direitos e de legitimidade. É lamentável perceber a "facilidade" com que são comprados os discursos hegemônicos, como é fácil demonizar o outro que não cede - e nem vai ceder - a autonomia individual e a autonomia da igreja- e como vai se constituindo um léxico do que é permitido e outro, do que é proibido.

Faz parte da estratégia maior do patriarcado, consciente ou inconscientemente, não importa, dividir para governar. 

É bom perceber, no entanto, que a vida sempre dá um jeito de fugir ao controle. Nesse caso, a consagração de mulheres (assim como de homens) entre os Batistas brasileiros sempre será uma decisão das igrejas locais, assim como o trânsito ministerial. Se por um lado, há o silenciamento, a tentativa de tutela e a tentativa de dividir "por dentro"; por outro, há barulho, resistência e esforço de unidade.
pastoras Batistas no I Congresso Brasileiro de Pastoras Batistas e Vocacionadas 


sábado, 25 de junho de 2016

Autodelicadeza

As flores das cerejeiras nascem esplêndidas.
Sem se importar com a própria beleza,
Desprendem-se das amarras
Lançando-se no ar.

Por onde o vento as leva
Importa mais que o destino.
Ao fim,  alimenta a terra,
Dá de comer a bichos.

O tempo dessa travessia
de uma realidade a outra
Estende-se ou estreita-se,
Arrepiando a pele em sua passagem.

Viver é extraordinário.


quarta-feira, 27 de abril de 2016

texto de 2014 publicado no Jornal Batista

o jornal batista – domingo, 16/02/14 ponto de vista
Pastoras, graças a Deus!
Silvia Nogueira Pastora há 15 anos

“Paulo (chamado apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus), e o irmão Sóstenes, à igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso: Graça e paz da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (I Co 1.1-3).

Quando teólogos e líderes cristãos debatem sobre qualquer tema que envolve as mulheres é perceptível um duplo discurso. Não me refiro à saudável oposição de ideias, nem a dificuldade comum de gerar consensos que os temas de nossos interesses costumam produzir. Falo de um duplo discurso que ora glória, ora avilta as mulheres, dependendo de qual perspectiva o sujeito está tratando. As mulheres são importantes para a manutenção da espécie humana, para a criação dos filhos e suporte da família; são dignas do plano divino de redenção e são admiráveis por servirem ao Senhor tão contundentemente em igrejas e campos missionários. São importantes, salvas e dignas, mas... até certo ponto. Mulheres não podem ser pastoras!? Quem traçou a linha (e ainda traça) que separa para quais “coisas” as mulheres são dignas, ou capazes de ser e fazer? Quem traçou no ambiente da religião cristã e, mais particularmente, entre os batistas? O poder de “traçar” uma linha de interdição às mulheres está em um “outro”, não nas mãos das próprias mulheres. O “outro” tem a favor de si um “poder outorgado por outros”, pela tradição, pela influência e, às vezes, pelo dinheiro. Este poder de interditar não foi conferido por Deus, é claro, e, por isso, ele pode e deve ser contestado. 
Mesmo para os crentes mais piedosos, é fácil perceber que os assuntos relativos à fé e ao Sagrado são, na maioria das vezes, tratados também em instâncias humanas, determinadas pela vontade humana (At 15.28 entre outros). Essa leitura correta e madura da realidade religiosa nos ajuda a “testar os oráculos” e seus porta-vozes. Se parecer para nós que algo sempre foi assim, não significa que devamos acreditar que continuará sempre assim. É preciso discernir o poder. A escravidão, por exemplo, foi por um longo tempo entendida como “natural”, arraigada no imaginário coletivo e legitimada pela religião cristã. 
Os contextos bíblicos em que ela aparece e, a sua utilização pelos próprios judeus, não conseguiram obscurecer o pressuposto da liberdade humana como um ideal divino. A execração pública da escravidão, então, dependeu de um conjunto de iniciativas, novas leituras bíblicas e muita coragem para enfrentar o instituído tanto na mente do senhor de escravos quanto na mente do próprio escravo. No Brasil, os abolicionistas eram conhecidos como liberais que ameaçavam a hierarquia da sociedade e os valores da família branca e burguesa. Os ânimos dos prós e contras eram inflamados. O argumento de matriz filosófico e teológico mais difícil de ser vencido pelos abolicionistas não era o de saber se negros tinham alma ou não, mas a convicção internalizada de que Deus havia criado os negros inferiores ao homem branco. Eram úteis, capazes de muitos sentimentos valorosos, dignos de realizar inúmeras tarefas, mas nunca poderiam se colocar em situação de liderança sobre nenhum homem branco. Hoje, qualquer cristão pode afirmar sem medo, também como algo “natural”, que escravizar um outro ser humano, por causa da cor de sua pele, ofende a criatura e o Criador. Levamos muito tempo para entender que o Senhor é deles e nosso. 2014 poderá ser lembrado como o final de uma longa e perversa resistência a um pressuposto paulino básico para sua teologia da igreja cristã: o ministério na igreja deve ser exercido por aqueles e aquelas que receberam um dom do Espírito Santo com o único objetivo de servir à Igreja de Jesus Cristo nas suas múltiplas necessidades (I Co 12.13,18). O ministério pastoral é um dos muitos ministérios da igreja que devem ser ocupados por pessoas vocacionadas, que receberam um dom, cujo propósito é servir e edificar. Ser pastor ou pastora está, portanto, diretamente relacionado com a compreensão de vocação, de recebimento do dom espiritual. A Bíblia diz que o Espírito Santo confere os dons, qualquer um deles, a quem Ele quer, seguindo uma agenda divina própria, incorruptível com os desejos e determinações humanas (I Co 2.12 e ss). Há muitos exemplos bíblicos de como Deus age subvertendo ordens, teologias, religiosidades e moralidades da sociedade. Esse agir de Deus é, este sim, supracultural. Uma espécie de idiossincrasia divina: trabalhar com aquilo que não pode ser e fazê-lo ser (I Co 1 e 2). Se para Paulo, apóstolo aos gentios, a igreja é um corpo vivo pela ação do Espírito Santo e através do serviço de homens e mulheres vocacionados para variados ministérios, o impedimento ocorrido até agora para a realização tranquila de concílios para exame de mulheres ao ministério da Palavra e suas filiações à agremiação de pastores batistas poderia ser considerado um sério desprezo a forma de agir do próprio Deus ou, quem sabe, ainda, a colocação de determinações e acordos culturais acima da “loucura do Evangelho”.
Nesses 15 anos de existência formal de pastoras em nossa querida denominação, tudo foi muito duro. Foi muito difícil ler e ouvir, por exemplo, alguns líderes nos chamando de apóstatas, homossexuais, dissensoras, destruidoras dos valores da família, corruptoras do evangelho, entre outras palavras malditas. Eu não me reconhecia e nem as minhas companheiras de ministério em nenhuma dessas palavras. Amo Jesus Cristo e amo sua Igreja. Por vocação, sirvo a Ele e a igreja. Por convicção, sou batista e respeito minha denominação. Não me reconheço, nem as minhas colegas, em nada que nos ofenderam e nem no desejo de divisão. Pelo contrário, nós, mais do que ninguém, sabemos que “o cordão de três dobras não se quebra tão depressa” (Ec 4,12). E para aqueles que ainda desejam “cartas de recomendação”, é preciso dizer que o Espírito Santo e a igreja de Jesus são a nossa carta de recomendação. A decisão da OPBB, portanto, chega atrasada no timing de Deus, mas chega. Mas ela ainda pode inaugurar um tempo de reconhecimento e visibilidade institucional às muitas pastoras batistas brasileiras, pastoreando igrejas, e as muitas mais que virão. Nossos colegas podem nos ajudar a superar o tempo “duro”; afirmando com a serenidade paulina que o Senhor é deles e nosso.

sábado, 16 de abril de 2016

quando até o amor falha!


se eu não tivesse o amor
seria como sino ruidoso
ou como címbalo estridente. 1Co 13,1b
Há alguma coisa muito errada na terra chamada Brasil e, ao mesmo tempo, em terras evangélicas. Parece haver, nesse atual momento de nossa história,  uma sincronia -que nunca será confessada- entre a "massa" nacional e a "massa" evangélica.
De alguns anos para cá, as gentes dessas terras têm apresentado uma tal incivilidade que dispara os sinais de alerta daqueles que conseguem ver para além das aparências: perigo, perigo, perigo.  O cenário político atual, polarizado de uma forma doentia entre o correto e o inimigo, apresenta o espetáculo do absurdo. O maior absurdo tem sido descobrir que atitudes fascistas são cometidas com muita "dignidade" pelo cidadão comum.
Uma rápida passada pelas timelines das redes sociais, blogs e sítios comprovam como o cidadão "de bem" sabe odiar.  Muitas postagens destilando intolerâncias, purismos, xenofobismo, racismo, sexismo, fundamentalismos.
Até no meio de comunicação mais popular atualmente, o Whats app, somos sacudidos, a cada momento, por correntes espalhando boatos infundados, maledicências, terrorismo, inclusive, gospel, que convidam a repassar para outras pessoas as demonizações diárias da divergência real ou inventada.
Este fenômeno, que em breve será investigado a fundo pelas ciências humanas e sociais e deverá ganhar algum nome que organize racionalmente o que estamos vivendo, tem semelhanças com outros momentos da história brasileira e mundial que encaminharam os cidadãos "de bem" para uma  sensação de unidade, de homogeneidade branca, de direita, santa e fiel as doutrinas, guardiã da moral da família e do vizinho e que envia os cidadãos "do mal" para as fogueiras santas de toda ordem em nome de Deus.
Estão escutando os sinos ruidosos e os címbalos estridentes?
Pois então, eles estão ressoando em nossos arraiais, em nossas redes sociais, em nossos grupos identitários. O som é altíssimo, vindo às vezes de lugares/pessoas inesperadas, vindo das instituições, vindo de uma sociedade que anda se afirmando como capaz de excessos, vindo dos homens e mulheres de bem, vindo dos religiosos e religiosas, de gente simples, de lideranças muito e pouco escolarizadas, de gente pobre, gente rica, deputado e senador.
Andam fazendo muito barulho, ganhando adeptos, marchando...
Com tanta ressonância, é preciso voltar às coisas simples e básicas. Para os que são de Jesus, Batistas ou não, a necessidade é revisitar, quando na turbulência, o valor mais primordial da Revelação:
"ainda se eu tivesse toda fé...
ainda se eu fosse pio...
ainda se eu tivesse fé...
ainda se eu tivesse esperança...
se não tivesse amor, nada disso adiantaria."
Acertamos em muitas coisas como nação e como denominação, mas estamos falhando no amor. E se estamos falhando no amor, nem nossa fé, nem nossa piedade, nem nossa esperança adiantam. Quando nossa fé e esperança superam o amor, estamos falhando. Quando o amor é questionado como o mais alto valor pelos que têm fé e esperança, entendemos tudo errado.
"permanecem estas três coisas:
a fé, a esperança e o amor.
A maior delas, porém é o amor."
No cenário nacional, apoiar o impeachment da presidente eleita da República, no contexto gerador dos motivos, é o caminho da vitória da possibilidade prática do cerceamento da liberdade, do pensamento à esquerda, da vitalidade dos movimentos sociais em sua diversidade, das conquistas para os mais pobres, entre outras perdas.
Na denominação Batista, a exclusão sumária da divergência, o alinhamento do conservadorismo que demoniza e deseja impedir, rotular, alijar os que pensam e leem a Palavra por diferentes perspectivas, como se cada uma delas, inclusive a deles, não fossem fruto de um processamento histórico e de disputas hegemônicas, é o caminho da vitória da possibilidade prática do cerceamento da liberdade, do pensamento à esquerda, da fraternidade na diversidade, do livre exame das Escrituras, da superioridade da Palavra e dos princípios sobre a Tradição.
Talvez o que mais inquieta nesse momento é o grau de satisfação com que a nação e a denominação rechaçam, através de lentes sem amor, o que consideram ilegal. A nação não está amando, pois as características do amor são não buscar seus próprios interesses, não se alegrar com a injustiça, entender que tem apenas a compreensão parcial da realidade. O amor acredita, espera, suporta, perdoa. Então...
Se o cidadão não pensa como nós, ele não é o demônio.
Se nosso irmão não pensa como nós, ele não é o demônio.
Pois ainda que nós estejamos certos, se o que nos orienta não for o amor: a Deus, ao outro, falhamos. E quando até o amor falha...o que nos resta é continuar resistindo.


sexta-feira, 8 de abril de 2016

pequena bibliografia para início dos estudos sobre mulheres e religião, na Bíblia, Teologia e História


Vozes femininas nas religiões mundiaisLivro - Jesus - Libertador da Mulher

Casa, as Mulheres


BIBLIOGRAFIA BÁSICA

AQUINO, Maria P. A Teologia, a Igreja e a Mulher na América Latina. São Paulo: Paulinas, 1997.
BINGEMER. Maria C. L. O segredo feminino do Mistério: Ensaios de Teologia na ótica da mulher. Petrópolis: Vozes, 1991.
FIORENZA, Elisabeth S. As origens cristãs a partir da Mulher: Uma nova hermenêutica. São Paulo: Paulinas, 1992.
GEBARA, Ivone; BINGEMER. M. C. L. A mulher faz Teologia. Petrópolis: Vozes, 1986.
JOHNSON, Elizabeth A . Aquela que é: o mistério de Deus no trabalho teológico feminino. Petrópolis: Vozes, 1995 .
SOTER (Org.) Gênero e Teologia: Interpelações e Perspectivas. São Paulo: Paulinas & Loyola, 2003.

YOUNG, Pamela D. Teología Feminista – Teología Cristiana: en Búsqueda de un Método. México: Demac, 1993. COMPLEMENTAR AMORÓS, Celia (Dir.). 10 palabras clave sobre mujer. Estella (Navarra): Verbo Divino, 1995. 
http://www.theotrek.org/resources/Plampin/Licoes-sobre-Mulheres-Cristas/pastoras-nt-port/01-indice-pastoras.htm

não somos maiores que Jesus




Quando a mulher samaritana conversou com Jesus junto ao poço (Jo.4), uma série de situações inquietantes foram sendo gestadas. Inquietação, entre algumas possibilidades de definição,  é um "desassossego que impede o repouso". Para os primeiros ouvintes/leitores dessa narrativa, é possível imaginar o tamanho do desassossego. Séculos depois, o diálogo entre a mulher e Jesus ainda mantém sua força em inquietar nossa racionalidade, nosso coração e nossas interpretações religiosas.
O ministério de Jesus de Nazaré foi construído no caminho, nas suas itinerâncias até o fatídico dia em Jerusalém. A região da Galiléia recebeu o Mestre inúmeras vezes. No contexto de João 4, ele estava a caminho de lá, atravessando necessariamente a região da Samaria. Jesus estava cansado da viagem e sentia sede no calor do meio-dia. A mulher chega ao poço no calor do meio-dia. Os dois encontram-se, são colocados lado a lado necessariamente pelas circunstâncias. Humanidade e humanidade.
Esse primeiro momento do texto já tem muito a nos inquietar nesses tempos sombrios quando estamos desenvolvendo reais dificuldades para os encontros. Tempo cujo marco tem sido o estranhamento absoluto entre os sujeitos. Tempo em que nem mesmo a humanidade que nos contingencia a todos é elemento de reconhecimento mínimo, incapaz de suscitar desarmamento do espírito ou suspensão temporária da diferença.  
Ora, o Mestre não tinha pudores de nenhuma ordem. Não tinha melindres, nem zelo tal que impedisse a aproximação e relação com pessoas interditadas pela Lei e sua interpretação. Nem mesmo sua natureza divina era colocada em xeque pela aproximação do que poderia ser considerado impuro. Os centenários passam e nós vamos inflando nossa ortodoxia em detrimento dos encontros. Desenvolvemos pudores, melindres, zelo cego, cristalizações interpretativas da Lei e arrogante santidade. Nada disso nasceu conosco, fomos descobrindo e alimentando ao longo do caminho. Parece que nos preocupamos mais com as coisas santas do que o próprio Deus.
A samaritana se surpreendeu com a quebra do protocolo do judeu a sua frente. O que mais se tem feito ao longo da história das civilizações é construir mediações entre as pessoas. Quantas mediações deve haver entre as pessoas? Não deveria nos espantar quando alguém passa por cima de protocolos e mediações alheias, por mais aparentemente civilizadas ou tradicionais, para agir de forma a se aproximar do próximo que desconhece, a exemplo do agir de Jesus. E isso é inquietante hoje.
A resposta de Jesus a mulher merece atenção piedosa. É provocativa, desconcertante e misteriosa. Esses adjetivos cabem bem porque remetem a uma certa loucura, para nós, da parte de Deus. Afinal, quem conhece Deus? Quem pode conhecê-lo em todo o seu Ser? Nem os profetas que vieram antes de nós puderam conhecê-lo em toda a sua Glória. Mas, ao mesmo tempo, há algo a conhecer e prosseguir conhecendo a respeito Dele. Tudo isso só é possível por meio de Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus. Logo, parte do conhecimento é Mistério; outra parte, Jesus nos revela. Em parte conhecemos, em parte desconhecemos!
Podemos passar uma existência inteira sem conhecer a Jesus de fato. A condicional feita junto ao poço é desconcertante. Será que na caminhada conhecemos o dom de Deus mesmo? Será que o que julgamos conhecer não estaria na ordem do Mistério? Será que nós estamos de fato saciados pela água que jorra para a vida eterna? Quais seriam os sinais de nossa saciedade? A julgar pela caminhada de Jesus, os sinais são muito evidentes: amar, amar, amar, inclusive, os que não são nossos amigos, ou, ainda, os que para nós são samaritanos. Talvez seja esse o critério para balizar nossas aproximações: a rejeição dos afastamentos de qualquer ordem. E isso traz muita inquietação hoje!.







quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

As fronteiras do Ide!



Pra. Rose Reis, ES
 A vida religiosa sempre foi algo complexo para as mulheres no mundo cristão (católicos, protestantes e, mais recentemente, evangélicos). Complexo porque há uma dissonância entre o que nós aprendemos do Cristo sobre o seguimento e suas responsabilidades, dos apóstolos sobre o que seja a igreja e suas formas de servir e o menosprezo milenar intrínseco às culturas em relação às mulheres. 
Recente relatório global, produzido por agências internacionais na área de economia e sociedade, após levantamento que cobriu a última década do século XXI, sinaliza que a maioria dos países não deu o salto civilizatório esperado na questão de gênero. Pelo contrário, em alguns, direitos regrediram, estigmas de inferioridade e mercantilização do corpo feminino aumentaram e, em apenas poucos, pequenos avanços, tímidos, foram detectados. Em especial, na questão da mesma remuneração às mulheres que ocupam cargos iguais aos homens.
Se no mundo dito "secular", esse século ainda não pode ser celebrado no caminho da dignidade e liberdade das mulheres, no mundo da religião, na experiência vocacional das mulheres, dentro da vida religiosa, estamos ainda mais atrasados na perspectiva dos alvos éticos, eclesiológicos e teológicos da cristandade para a dignidade e igualdade da vida. 
Talvez a ação mais pernóstica nessa questão da vivência feminina na vida religiosa é que, grosso modo, nenhum dos religiosos pensam que há algo errado. Para a massiva maioria, as mulheres exercitam suas vocações e seus papéis religiosos sem nenhuma interdição. No universo evangélico, por exemplo, a esmagadora maioria feminina nas congregações, as intensas atividades eclesiásticas e missionárias capitaneadas pelas irmãs, as missionárias sendo enviadas aos campos, as educadoras trabalhando e as musicistas atuando seriam sinais de que tudo vai bem. 
Um olhar pastoral mais sensível, e um olhar religioso mais crítico, apresentarão um cenário de tensões, silenciamentos, violências simbólicas, interditos velados, orientação teológica fundamentalista e gerenciamento de recursos manchados pela cultura sexista. A título de ilustração, compartilho dois fatos infelizmente corriqueiros no universo da religião evangélica, por exemplo. Um casal de líderes em uma congregação periférica era aparentemente sem problemas. Certo dia, a esposa chama parentes para socorrê-la e eles testemunham uma cena de violência simbólica e ameaças de violência física do marido sobre a mulher. Situação compartilhada no gabinete pastoral há anos e que, após o epísódio-limite, definidor do pedido de separação, provocou um novo gabinete, cujo acolhimento à esposa era esperado. 
Quando essa esposa, ameaçada ainda pelo ex marido decide depois de anos dar queixa na delegacia de mulheres, o acolhimento desaparece. Ela é julgada negativamente pela pastoral e veladamente instada, através do discurso religioso da submissão e da inferioridade feminina, a mudar de decisão. Nada acontece ao seu ex marido que justificado pelo discurso machista, que encontra eco, inclusive, na figura pastoral, continua suas atividades de liderança. 
Questões de violência doméstica, de abuso paternal, de assédio e pedofilia são mais frequentes do que gostaríamos de admitir. E ainda mais complexas de se cuidar na vida comunitária, porque são intencionalmente silenciadas e seus personagens femininos engolidos pela máquina de esconder verdades que age sob o manto da religião triunfalista.
Segundo fato. Na nossa cultura evangélica, missionários são uma não assumida subcategoria do ministério pastoral, isto é, são importantes, respeitados, mas não tanto quanto um pastor. E as missionárias, então? São admiradas, mas têm condições econômicas distintas dos colegas. 
Por anos, as religiosas missionárias e líderes locais são celebradas e elogiadas por não desejarem reconhecimento pelo ministério e serviço que desempenham. Atitude que no fundo maqueia a tensão permanente da vivência religiosa das mulheres em ministério, já que a vida ministerial é também permeada por trocas simbólicas, pelas relações de poder e em cuja relação, as mulheres não possuem a mesma posição que os homens, indubitavelmente. E qualquer líder sabe disso, seja nas reuniões de lideranças, entre os pares ou na vida denominacional.
A recente discussão sobre a militância de algumas de nós, não apenas para o exercício das vocações pastorais que recebemos - algo já imensamente grande e necessário - mas também pelo reconhecimento do título responde ao mascaramento histórico do duplo discurso sobre a vida religiosa feminina no mundo cristão: podem muito, mas não podem tudo! podem ter vocações, mas não todas! podem realizar a mesma coisa, mas não podem ser reconhecidas por executá-las! podem viver a vida religiosa, mas não podem tensioná-la! podem falar, mas devem calar!
 Temos ouvido que estamos nos preocupando demais com reconhecimento e que deveríamos trabalhar sabendo que Deus está nos vendo. Ora, é óbvio! A luta pelo reconhecimento é justamente insuflada porque trabalhamos, nos preocupamos, nos ofertamos, nos entregamos às vocações, sabendo que Deus nos aprovou e reconheceu primeiro.      
 Nós estamos indo! Mas queremos continuar indo reconhecidas pelo o que somos! Estamos lutando para aplainar o caminho das que virão, para transformar a comunidade cristã em uma comunidade de irmãos, de fato, e para denunciar que insulta os céus e violenta vidas o discurso velado da inferioridade feminina e da desigualdade social e religiosa que as mulheres em ministério vivem com maior ou menor grau de consciência, nas diferentes dimensões da vida cotidiana. Este debate é necessário, sim, mesmo entre os mais piedosos. Já que deseja-se que trabalhemos, mas ao mesmo tempo, que esqueçamos das dificuldades e interdições causados por processos humanos, pelas disputas dentro de uma tradição. Logo, as desculpas dadas e restrições eivadas de piedade à luta pelo reconhecimento das pastoras entre os Batistas, em particular, é uma fronteira ao cumprimento do Ide , necessitando ser ultrapassada o quanto antes. 



Pra. Aristina, MT

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

conversa séria, em construção

Contribuições de leituras contemporâneas acerca do debate sobre pastorado feminino

 “Todos os oráculos têm o falar dobrado. Mas entendem-se”.
Machado de Assis

 “A poesia me salvará.
.......................................
Ela me salvará. Não falo aos quatro ventos,
Porque temo os doutores, a excomunhão
E o escândalo dos fracos. A Deus não temo.
Que outra coisa ela é senão sua Face atingida
Da brutalidade das coisas?”
Adélia Prado

 Pode parecer estranho iniciar a conversa sobre leituras contemporâneas através de um olhar pelo retrovisor do tempo ou pela necessidade de preservação de uma memória, nesse caso, desviante. A justificativa está no fato de que o passado, a herança trazida no explícito e implícito das sociedades e, sobretudo, a memória, constituem um instrumento de poder. A memória é aquilo que as sociedades escolheram para guardar, registrar e, entre outras coisas, produzir conhecimento para o futuro; e o presente se alimenta do passado para traçar novas linhas de futuro. A memória constrói o tempo histórico. Ratifico a importância da história, ou melhor, da necessidade de se ter consciência histórica, de estar atento, vigilante mesmo, aos processos de preservação e transmissão das fontes, em todos os assuntos ou saberes acumulados. A questão do feminino na sociedade ocidental é um assunto, um saber e uma memória que reivindica ainda um pouco mais de zelo e atenção. E se estamos falando de ministério pastoral ou de ofícios ordenados nas igrejas cristãs estamos falando de assunção ou negação de poder - na história e na memória - aos sujeitos femininos.

Bernadete Brooten observa acertadamente que “a falta de fontes sobre a história das mulheres é, em si, parte da história das mulheres”. Esta marginalização da mulher nos documentos antigos, como também na historiografia moderna representa uma instância particular dentro da marginalização em massa de todas as pessoas que não eram elite política, econômica e cultural. (FOULKES, p.47).

Após a década de 60, a quantidade de trabalhos que revisitam a historiografia, inclusive no Brasil, aumentou exponencialmente.  Nessa abertura científica para a temática da mulher nas ciências humanas e sociais foi-se delineando as construções imagéticas e discursivas que a história de “visão e nomenclatura e interesses masculinos” produziu. Nesse levantamento, a oposição entre pólis e oikos, mulher de rua e mulher de casa. “Nas imagens idealizadas das mulheres, o discurso apresenta dois extremos: a mãe devotada, imaculada, a santa, de um lado; ou a amante ou prostituta, transgressoras de uma certa ordem, do outro”. (PEREIRA, 1996, p.7).
Entre os cristãos católicos na periferia há alguns trabalhos à reboque da teologia feminista e da categoria de gênero nas ciências humanas e sociais que tem demonstrado interesse em recuperar a memória para formar a história dos sujeitos religiosos femininos. Há um sugestivo trabalho que tenta mapear os últimos 4o anos de vida religiosa das mulheres em um relatório de 1997 intitulado  “Recuperação da memória histórica da mulher na vida religiosa feminina da América latina e do Caribe”, a justificativa para o interesse nesse relatório era “Descobrir a passagem de Deus através dos últimos 40 anos de história da vida religiosa feminina , para concretizar sua identidade no processo vivido e descobrir novos caminhos”.
Uma das contradições que cerca a discussão sobre as mulheres em sociedade é o fato de que o imaginário misógino é tão arraigado que por muito tempo a própria igreja cristã não precisou defender a não ordenação. Parecia um consenso de que os espaços para o feminino na eclésia cristã estava definido pela devoção e manutenção da tradição e moral cristã no privado e para as obras caridosas no espaço público mediado pela igreja. Era um espaço de “respeito” a condição feminina na figura da mãe de família burguesa. Há um estudo da historia das mulheres no Brasil que defende que esse papel autorização da educação cristã no lar só era permitido para s mulheres que tinham laços matrimoniais reconhecidos pela igreja. No Brasil Colônia representava um número muito reduzido de mulheres já que a maior parte dos relacionamentos eram ligações maritais não oficiais. O arraigamento da misoginia também pode ser percebido em uma classe formadora importante que são os intelectuais. Mesmo intelectuais progressistas ou ainda periódicos nacionais capazes de lutar contra a escravatura, no quesito emancipação feminina, pôde ser tão ou mais reacionário do que o mais pernóstico dos fundamentalistas[i]. É difícil compreender como se dá esse processo em que homens cultos, de tendências ideológicas tão díspares se comportarem de igual forma, rechaçando ou ridicularizando ou ainda perpetuando um olhar sobre as mulheres como sujeitos “menores” ou ainda “não sujeitos”. É quase como se houvesse uma ignorância sexista escondida sob a própria inteligência.
Poucos se lembrarão do tempo em que as mulheres não exerciam a advocacia ou eram proibidas de jogar futebol nas primeiras décadas do século XX. Poucos ainda se dão conta de que a relação sexual para o prazer e não apenas para a procriação, no caso das mulheres, é claro, só começou a ser dissociada na segunda metade do século XX e na teologia católica isso ainda não faz parte das possibilidades da relação com o corpo da mulher. Poucos se dão conta que até o século XIX a teologia e a medicina viam no corpo feminino o lugar onde Deus e o diabo se digladiavam[ii] e tudo o que dizia respeito ao corpo feminino, sua liberdade, sua sexualidade, podia ser um fator de desequilíbrio nas instituições sociais. Parece que mesmo hoje a preocupação com o equilíbrio das instituições sociais como família, igreja, denominações e economia são razões suficientes para olhar com desconfiança, provocar ameaças de rupturas ou ainda solicitar um tempo sagrado para que naturalmente as mudanças aconteçam.
A partir da década de 80 (Vale a pena a leitura do texto de Élisabeth J. Lacelle “As ciências religiosas feministas:estado da questão”, Revista REVER, numero 1, ano 2, 2002, disponível em: HTTP://www.pucsp.br/rever/rv1, Acesso 21 de set 2003 ( o trabalho de Joan Scott sobre Gênero:uma categoria útil de análise histórica” Revista Educação e realidade, uma década de busca de aparato crítico teórico para o próprio movimento resultante da ampliação da pauta dos movimentos feministas e da categoria de gênero nas ciências humanas e sociais forma do trabalho e do direito a educação para as de intersecção entre o privado e o publico, a família, a realização profissional, a sexualidade e a ação pública reconhecida das mulheres a importância foi um repensar dos estereótipos ligados ao papel das mulheres no privado e é importante entender que em nome de uma rejeição a uma vitimação (herança feminista porque conectada a idéia marxista de opressão histórica) ou heroicização dos sujeitos feministas um novo patamar categórico esta sendo postulado a da reinvenção do sujeito masculino[iii] e no diálogo constitutivo entre os pares. Há que se entender que mesmo problematizando a categoria da opressão ligada ao discurso das feministas e ao marxismo, a América Latina e o Brasil em particular precisa distinguir que como os lugares sociais são determinadas pela questão do gênero, a distinção não é unívoca porque dentro da categoria de gênero outras categorias de análise para a opressão incidem como a etnia e a classe social.
O contemporâneo é o nosso agora, essa primeira década do século XXI, no entanto, no que diz respeito à situação feminina nas diversas áreas e no meio eclesial em particular estamos ainda vivendo uma esquizofrenia discursiva, um paradoxo constatável e uma luta cotidiana para manutenção das conquistas, porque os enfrentamentos são práticos e discursivos ao mesmo tempo, além de se manifestarem nas relações sociais mais diversas.
                        continua


[i] Entre tantos textos sobre a história das mulheres ou da vida privada, faço menção as revisões históricas divulgadas pela Revista Nossa história da Biblioteca Nacional que  apresenta o artigo de Rachel Soihet “Pisando o ‘sexo frágil’” que analisa a imprensa brasileira na virada do século satirizando a luta feminista, Ano 1, nº 3, jan de 2004. Há de se observar a quantidade de imagens negativas sobre os sujeitos femininos que constroem um conjunto de imagens educativas para os leitores daquele tempo.
[ii] PRIORE, Mary Del. Magia e medicina na Colônia:o corpo feminino. In:____________. (org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2001, p.78-114.
[iii] Vale a pena ler o trabalho de Pedro Paulo Oliveira, Discursos sobre a masculinidade In:Estudos feministas, vol 6, Rio de Janeiro, IFCS-UFRJ, 1998, p.91-113.

memória e história

Quando abrimos o texto bíblico, poucas vezes escolhemos narrativas cuja personagem é feminina. Acredito que seja um reflexo da nossa educação teológica que favorece e privilegia um anonimato feminino nas questões do texto bíblico. É quase como se não existissem lições teológicas positivas a aprender com as mulheres na Bíblia. Obviamente, isso é um erro. Então, naturalmente, os textos em que as mulheres protagonizam sempre me solicitam. É o que acontece com Marcos 14,3-9.
Prefiro a narrativa de Marcos a de Mateus e João por dois motivos: o primeiro, por ser Marcos o evangelho escrito mais antigo; o segundo, porque a mulher nesse evangelho não tem nome e o evangelista faz questão de explicar aos leitores aquilo que Jesus disse (v.8) sobre o ato da mulher. A explicação assinala a finalidade profética do gesto.
Uma das aproximações hermenêuticas da leitura dos evangelhos é encontrar a pergunta geradora da história narrada, isto é, recuperar a pergunta que originou na vida da comunidade a reunião daquelas histórias sobre Jesus em detrimento de outras. Diante de Marcos 14, a pergunta “provocadora” da história pode ser recuperada pela finalização dada por Jesus. Jesus ensina a todos os presentes, na casa daquele homem considerado impuro, que o feito da mulher deveria ser lembrado em todos os lugares onde as boas novas do Cristo fossem anunciadas. A história, então, foi contada por causa de um pedido de Jesus: preservar os feitos da mulher que o serviu de forma tão generosa e profética. Talvez a outra pergunta necessária seria, por que para Jesus era importante construir essa memória? Intuo possibilidades de resposta. Ministério é serviço. Mas também é movimento. Mover-se, desinstalar-se, é condição necessária ao exercício de nossas vocações e ministérios. Jesus disse aos seus outros discípulos e ao anfitrião do jantar que aquela mulher havia lhe servido, realizado uma boa obra. E as obras que as mulheres executam no Reino em geral sofrem com a crítica, o desrespeito e as proibições colocadas pelos discípulos do Senhor, mas não pelo Senhor. Essa distinção é fundamental para a compreensão de muitos obstáculos à realização plena da obra que está em nossas mãos para fazer e que, para tal, exige a ultrapassagem de certos interditos culturais e religiosos.
O Jesus dos evangelhos tem garantido às mulheres o espaço para servir. Por muito tempo descansamos nessa verdade sublime. Mas chamo a atenção para o fato de que essa lição está incompleta. O que Marcos não pode deixar de registrar como resposta a segunda pergunta é que Jesus censura os que não entenderam, criticaram e tentaram impedir a boa obra daquela mulher e isso também deve ser lembrado para que não se repita de novo na igreja do Senhor. Mas como tem se repetido! E se o gesto da mulher foi profético para anunciar a morte do Cristo e sua ressurreição, foi igualmente profético na coragem de servir e construir uma memória sobre seu feito e sobre a tentativa de proibição censurável dos discípulos de Jesus ao mesmo feito.  
Ainda é importante celebrar, nesse tempo, a memória dos feitos das irmãs em ministério, nos campos missionários, nas igrejas, em todo lugar, cumprindo a missão que receberam e as movimentam. No entanto, também é necessário trazer a outra memória que o texto aponta: a ação dos discípulos de Jesus em criticar, em tentar silenciar e invalidar o gesto daquela mulher, foi censurada pelo Mestre no passado e continua sendo censurável hoje. 
Por que não registramos nossa memória? por que não registramos a memória completa? É preciso construir nossa visibilidade! Mais outro exemplo: alguns discípulos tem usado um discurso de que as pastoras são ordenadas apenas para a igreja que solicitou sua consagração, ou seja, elas não são pastoras do ministério batista. E ainda outro: o silenciamento na educação teológica da possibilidade das mulheres que fazem teologia serem também pastoras ao final do curso, caso tenham essa vocação. Por que não fazemos um grande movimento memorialístico para dar memória de nossas boas obras,  histórias ministeriais, seus desafios e vivências, suas trajetórias vocacionais? E por que não evidenciar a censura dada por Jesus aos seus discípulos? Censura que se estende também aos atuais discípulos do mesmo mestre.

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