As opiniões deste blog não representam, necessariamente, o conjunto dos pastores batistas: homens ou mulheres.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

conversa séria, em construção

Contribuições de leituras contemporâneas acerca do debate sobre pastorado feminino

 “Todos os oráculos têm o falar dobrado. Mas entendem-se”.
Machado de Assis

 “A poesia me salvará.
.......................................
Ela me salvará. Não falo aos quatro ventos,
Porque temo os doutores, a excomunhão
E o escândalo dos fracos. A Deus não temo.
Que outra coisa ela é senão sua Face atingida
Da brutalidade das coisas?”
Adélia Prado

 Pode parecer estranho iniciar a conversa sobre leituras contemporâneas através de um olhar pelo retrovisor do tempo ou pela necessidade de preservação de uma memória, nesse caso, desviante. A justificativa está no fato de que o passado, a herança trazida no explícito e implícito das sociedades e, sobretudo, a memória, constituem um instrumento de poder. A memória é aquilo que as sociedades escolheram para guardar, registrar e, entre outras coisas, produzir conhecimento para o futuro; e o presente se alimenta do passado para traçar novas linhas de futuro. A memória constrói o tempo histórico. Ratifico a importância da história, ou melhor, da necessidade de se ter consciência histórica, de estar atento, vigilante mesmo, aos processos de preservação e transmissão das fontes, em todos os assuntos ou saberes acumulados. A questão do feminino na sociedade ocidental é um assunto, um saber e uma memória que reivindica ainda um pouco mais de zelo e atenção. E se estamos falando de ministério pastoral ou de ofícios ordenados nas igrejas cristãs estamos falando de assunção ou negação de poder - na história e na memória - aos sujeitos femininos.

Bernadete Brooten observa acertadamente que “a falta de fontes sobre a história das mulheres é, em si, parte da história das mulheres”. Esta marginalização da mulher nos documentos antigos, como também na historiografia moderna representa uma instância particular dentro da marginalização em massa de todas as pessoas que não eram elite política, econômica e cultural. (FOULKES, p.47).

Após a década de 60, a quantidade de trabalhos que revisitam a historiografia, inclusive no Brasil, aumentou exponencialmente.  Nessa abertura científica para a temática da mulher nas ciências humanas e sociais foi-se delineando as construções imagéticas e discursivas que a história de “visão e nomenclatura e interesses masculinos” produziu. Nesse levantamento, a oposição entre pólis e oikos, mulher de rua e mulher de casa. “Nas imagens idealizadas das mulheres, o discurso apresenta dois extremos: a mãe devotada, imaculada, a santa, de um lado; ou a amante ou prostituta, transgressoras de uma certa ordem, do outro”. (PEREIRA, 1996, p.7).
Entre os cristãos católicos na periferia há alguns trabalhos à reboque da teologia feminista e da categoria de gênero nas ciências humanas e sociais que tem demonstrado interesse em recuperar a memória para formar a história dos sujeitos religiosos femininos. Há um sugestivo trabalho que tenta mapear os últimos 4o anos de vida religiosa das mulheres em um relatório de 1997 intitulado  “Recuperação da memória histórica da mulher na vida religiosa feminina da América latina e do Caribe”, a justificativa para o interesse nesse relatório era “Descobrir a passagem de Deus através dos últimos 40 anos de história da vida religiosa feminina , para concretizar sua identidade no processo vivido e descobrir novos caminhos”.
Uma das contradições que cerca a discussão sobre as mulheres em sociedade é o fato de que o imaginário misógino é tão arraigado que por muito tempo a própria igreja cristã não precisou defender a não ordenação. Parecia um consenso de que os espaços para o feminino na eclésia cristã estava definido pela devoção e manutenção da tradição e moral cristã no privado e para as obras caridosas no espaço público mediado pela igreja. Era um espaço de “respeito” a condição feminina na figura da mãe de família burguesa. Há um estudo da historia das mulheres no Brasil que defende que esse papel autorização da educação cristã no lar só era permitido para s mulheres que tinham laços matrimoniais reconhecidos pela igreja. No Brasil Colônia representava um número muito reduzido de mulheres já que a maior parte dos relacionamentos eram ligações maritais não oficiais. O arraigamento da misoginia também pode ser percebido em uma classe formadora importante que são os intelectuais. Mesmo intelectuais progressistas ou ainda periódicos nacionais capazes de lutar contra a escravatura, no quesito emancipação feminina, pôde ser tão ou mais reacionário do que o mais pernóstico dos fundamentalistas[i]. É difícil compreender como se dá esse processo em que homens cultos, de tendências ideológicas tão díspares se comportarem de igual forma, rechaçando ou ridicularizando ou ainda perpetuando um olhar sobre as mulheres como sujeitos “menores” ou ainda “não sujeitos”. É quase como se houvesse uma ignorância sexista escondida sob a própria inteligência.
Poucos se lembrarão do tempo em que as mulheres não exerciam a advocacia ou eram proibidas de jogar futebol nas primeiras décadas do século XX. Poucos ainda se dão conta de que a relação sexual para o prazer e não apenas para a procriação, no caso das mulheres, é claro, só começou a ser dissociada na segunda metade do século XX e na teologia católica isso ainda não faz parte das possibilidades da relação com o corpo da mulher. Poucos se dão conta que até o século XIX a teologia e a medicina viam no corpo feminino o lugar onde Deus e o diabo se digladiavam[ii] e tudo o que dizia respeito ao corpo feminino, sua liberdade, sua sexualidade, podia ser um fator de desequilíbrio nas instituições sociais. Parece que mesmo hoje a preocupação com o equilíbrio das instituições sociais como família, igreja, denominações e economia são razões suficientes para olhar com desconfiança, provocar ameaças de rupturas ou ainda solicitar um tempo sagrado para que naturalmente as mudanças aconteçam.
A partir da década de 80 (Vale a pena a leitura do texto de Élisabeth J. Lacelle “As ciências religiosas feministas:estado da questão”, Revista REVER, numero 1, ano 2, 2002, disponível em: HTTP://www.pucsp.br/rever/rv1, Acesso 21 de set 2003 ( o trabalho de Joan Scott sobre Gênero:uma categoria útil de análise histórica” Revista Educação e realidade, uma década de busca de aparato crítico teórico para o próprio movimento resultante da ampliação da pauta dos movimentos feministas e da categoria de gênero nas ciências humanas e sociais forma do trabalho e do direito a educação para as de intersecção entre o privado e o publico, a família, a realização profissional, a sexualidade e a ação pública reconhecida das mulheres a importância foi um repensar dos estereótipos ligados ao papel das mulheres no privado e é importante entender que em nome de uma rejeição a uma vitimação (herança feminista porque conectada a idéia marxista de opressão histórica) ou heroicização dos sujeitos feministas um novo patamar categórico esta sendo postulado a da reinvenção do sujeito masculino[iii] e no diálogo constitutivo entre os pares. Há que se entender que mesmo problematizando a categoria da opressão ligada ao discurso das feministas e ao marxismo, a América Latina e o Brasil em particular precisa distinguir que como os lugares sociais são determinadas pela questão do gênero, a distinção não é unívoca porque dentro da categoria de gênero outras categorias de análise para a opressão incidem como a etnia e a classe social.
O contemporâneo é o nosso agora, essa primeira década do século XXI, no entanto, no que diz respeito à situação feminina nas diversas áreas e no meio eclesial em particular estamos ainda vivendo uma esquizofrenia discursiva, um paradoxo constatável e uma luta cotidiana para manutenção das conquistas, porque os enfrentamentos são práticos e discursivos ao mesmo tempo, além de se manifestarem nas relações sociais mais diversas.
                        continua


[i] Entre tantos textos sobre a história das mulheres ou da vida privada, faço menção as revisões históricas divulgadas pela Revista Nossa história da Biblioteca Nacional que  apresenta o artigo de Rachel Soihet “Pisando o ‘sexo frágil’” que analisa a imprensa brasileira na virada do século satirizando a luta feminista, Ano 1, nº 3, jan de 2004. Há de se observar a quantidade de imagens negativas sobre os sujeitos femininos que constroem um conjunto de imagens educativas para os leitores daquele tempo.
[ii] PRIORE, Mary Del. Magia e medicina na Colônia:o corpo feminino. In:____________. (org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2001, p.78-114.
[iii] Vale a pena ler o trabalho de Pedro Paulo Oliveira, Discursos sobre a masculinidade In:Estudos feministas, vol 6, Rio de Janeiro, IFCS-UFRJ, 1998, p.91-113.

memória e história

Quando abrimos o texto bíblico, poucas vezes escolhemos narrativas cuja personagem é feminina. Acredito que seja um reflexo da nossa educação teológica que favorece e privilegia um anonimato feminino nas questões do texto bíblico. É quase como se não existissem lições teológicas positivas a aprender com as mulheres na Bíblia. Obviamente, isso é um erro. Então, naturalmente, os textos em que as mulheres protagonizam sempre me solicitam. É o que acontece com Marcos 14,3-9.
Prefiro a narrativa de Marcos a de Mateus e João por dois motivos: o primeiro, por ser Marcos o evangelho escrito mais antigo; o segundo, porque a mulher nesse evangelho não tem nome e o evangelista faz questão de explicar aos leitores aquilo que Jesus disse (v.8) sobre o ato da mulher. A explicação assinala a finalidade profética do gesto.
Uma das aproximações hermenêuticas da leitura dos evangelhos é encontrar a pergunta geradora da história narrada, isto é, recuperar a pergunta que originou na vida da comunidade a reunião daquelas histórias sobre Jesus em detrimento de outras. Diante de Marcos 14, a pergunta “provocadora” da história pode ser recuperada pela finalização dada por Jesus. Jesus ensina a todos os presentes, na casa daquele homem considerado impuro, que o feito da mulher deveria ser lembrado em todos os lugares onde as boas novas do Cristo fossem anunciadas. A história, então, foi contada por causa de um pedido de Jesus: preservar os feitos da mulher que o serviu de forma tão generosa e profética. Talvez a outra pergunta necessária seria, por que para Jesus era importante construir essa memória? Intuo possibilidades de resposta. Ministério é serviço. Mas também é movimento. Mover-se, desinstalar-se, é condição necessária ao exercício de nossas vocações e ministérios. Jesus disse aos seus outros discípulos e ao anfitrião do jantar que aquela mulher havia lhe servido, realizado uma boa obra. E as obras que as mulheres executam no Reino em geral sofrem com a crítica, o desrespeito e as proibições colocadas pelos discípulos do Senhor, mas não pelo Senhor. Essa distinção é fundamental para a compreensão de muitos obstáculos à realização plena da obra que está em nossas mãos para fazer e que, para tal, exige a ultrapassagem de certos interditos culturais e religiosos.
O Jesus dos evangelhos tem garantido às mulheres o espaço para servir. Por muito tempo descansamos nessa verdade sublime. Mas chamo a atenção para o fato de que essa lição está incompleta. O que Marcos não pode deixar de registrar como resposta a segunda pergunta é que Jesus censura os que não entenderam, criticaram e tentaram impedir a boa obra daquela mulher e isso também deve ser lembrado para que não se repita de novo na igreja do Senhor. Mas como tem se repetido! E se o gesto da mulher foi profético para anunciar a morte do Cristo e sua ressurreição, foi igualmente profético na coragem de servir e construir uma memória sobre seu feito e sobre a tentativa de proibição censurável dos discípulos de Jesus ao mesmo feito.  
Ainda é importante celebrar, nesse tempo, a memória dos feitos das irmãs em ministério, nos campos missionários, nas igrejas, em todo lugar, cumprindo a missão que receberam e as movimentam. No entanto, também é necessário trazer a outra memória que o texto aponta: a ação dos discípulos de Jesus em criticar, em tentar silenciar e invalidar o gesto daquela mulher, foi censurada pelo Mestre no passado e continua sendo censurável hoje. 
Por que não registramos nossa memória? por que não registramos a memória completa? É preciso construir nossa visibilidade! Mais outro exemplo: alguns discípulos tem usado um discurso de que as pastoras são ordenadas apenas para a igreja que solicitou sua consagração, ou seja, elas não são pastoras do ministério batista. E ainda outro: o silenciamento na educação teológica da possibilidade das mulheres que fazem teologia serem também pastoras ao final do curso, caso tenham essa vocação. Por que não fazemos um grande movimento memorialístico para dar memória de nossas boas obras,  histórias ministeriais, seus desafios e vivências, suas trajetórias vocacionais? E por que não evidenciar a censura dada por Jesus aos seus discípulos? Censura que se estende também aos atuais discípulos do mesmo mestre.

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