As opiniões deste blog não representam, necessariamente, o conjunto dos pastores batistas: homens ou mulheres.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

texto de 2014 publicado no Jornal Batista

o jornal batista – domingo, 16/02/14 ponto de vista
Pastoras, graças a Deus!
Silvia Nogueira Pastora há 15 anos

“Paulo (chamado apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus), e o irmão Sóstenes, à igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso: Graça e paz da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (I Co 1.1-3).

Quando teólogos e líderes cristãos debatem sobre qualquer tema que envolve as mulheres é perceptível um duplo discurso. Não me refiro à saudável oposição de ideias, nem a dificuldade comum de gerar consensos que os temas de nossos interesses costumam produzir. Falo de um duplo discurso que ora glória, ora avilta as mulheres, dependendo de qual perspectiva o sujeito está tratando. As mulheres são importantes para a manutenção da espécie humana, para a criação dos filhos e suporte da família; são dignas do plano divino de redenção e são admiráveis por servirem ao Senhor tão contundentemente em igrejas e campos missionários. São importantes, salvas e dignas, mas... até certo ponto. Mulheres não podem ser pastoras!? Quem traçou a linha (e ainda traça) que separa para quais “coisas” as mulheres são dignas, ou capazes de ser e fazer? Quem traçou no ambiente da religião cristã e, mais particularmente, entre os batistas? O poder de “traçar” uma linha de interdição às mulheres está em um “outro”, não nas mãos das próprias mulheres. O “outro” tem a favor de si um “poder outorgado por outros”, pela tradição, pela influência e, às vezes, pelo dinheiro. Este poder de interditar não foi conferido por Deus, é claro, e, por isso, ele pode e deve ser contestado. 
Mesmo para os crentes mais piedosos, é fácil perceber que os assuntos relativos à fé e ao Sagrado são, na maioria das vezes, tratados também em instâncias humanas, determinadas pela vontade humana (At 15.28 entre outros). Essa leitura correta e madura da realidade religiosa nos ajuda a “testar os oráculos” e seus porta-vozes. Se parecer para nós que algo sempre foi assim, não significa que devamos acreditar que continuará sempre assim. É preciso discernir o poder. A escravidão, por exemplo, foi por um longo tempo entendida como “natural”, arraigada no imaginário coletivo e legitimada pela religião cristã. 
Os contextos bíblicos em que ela aparece e, a sua utilização pelos próprios judeus, não conseguiram obscurecer o pressuposto da liberdade humana como um ideal divino. A execração pública da escravidão, então, dependeu de um conjunto de iniciativas, novas leituras bíblicas e muita coragem para enfrentar o instituído tanto na mente do senhor de escravos quanto na mente do próprio escravo. No Brasil, os abolicionistas eram conhecidos como liberais que ameaçavam a hierarquia da sociedade e os valores da família branca e burguesa. Os ânimos dos prós e contras eram inflamados. O argumento de matriz filosófico e teológico mais difícil de ser vencido pelos abolicionistas não era o de saber se negros tinham alma ou não, mas a convicção internalizada de que Deus havia criado os negros inferiores ao homem branco. Eram úteis, capazes de muitos sentimentos valorosos, dignos de realizar inúmeras tarefas, mas nunca poderiam se colocar em situação de liderança sobre nenhum homem branco. Hoje, qualquer cristão pode afirmar sem medo, também como algo “natural”, que escravizar um outro ser humano, por causa da cor de sua pele, ofende a criatura e o Criador. Levamos muito tempo para entender que o Senhor é deles e nosso. 2014 poderá ser lembrado como o final de uma longa e perversa resistência a um pressuposto paulino básico para sua teologia da igreja cristã: o ministério na igreja deve ser exercido por aqueles e aquelas que receberam um dom do Espírito Santo com o único objetivo de servir à Igreja de Jesus Cristo nas suas múltiplas necessidades (I Co 12.13,18). O ministério pastoral é um dos muitos ministérios da igreja que devem ser ocupados por pessoas vocacionadas, que receberam um dom, cujo propósito é servir e edificar. Ser pastor ou pastora está, portanto, diretamente relacionado com a compreensão de vocação, de recebimento do dom espiritual. A Bíblia diz que o Espírito Santo confere os dons, qualquer um deles, a quem Ele quer, seguindo uma agenda divina própria, incorruptível com os desejos e determinações humanas (I Co 2.12 e ss). Há muitos exemplos bíblicos de como Deus age subvertendo ordens, teologias, religiosidades e moralidades da sociedade. Esse agir de Deus é, este sim, supracultural. Uma espécie de idiossincrasia divina: trabalhar com aquilo que não pode ser e fazê-lo ser (I Co 1 e 2). Se para Paulo, apóstolo aos gentios, a igreja é um corpo vivo pela ação do Espírito Santo e através do serviço de homens e mulheres vocacionados para variados ministérios, o impedimento ocorrido até agora para a realização tranquila de concílios para exame de mulheres ao ministério da Palavra e suas filiações à agremiação de pastores batistas poderia ser considerado um sério desprezo a forma de agir do próprio Deus ou, quem sabe, ainda, a colocação de determinações e acordos culturais acima da “loucura do Evangelho”.
Nesses 15 anos de existência formal de pastoras em nossa querida denominação, tudo foi muito duro. Foi muito difícil ler e ouvir, por exemplo, alguns líderes nos chamando de apóstatas, homossexuais, dissensoras, destruidoras dos valores da família, corruptoras do evangelho, entre outras palavras malditas. Eu não me reconhecia e nem as minhas companheiras de ministério em nenhuma dessas palavras. Amo Jesus Cristo e amo sua Igreja. Por vocação, sirvo a Ele e a igreja. Por convicção, sou batista e respeito minha denominação. Não me reconheço, nem as minhas colegas, em nada que nos ofenderam e nem no desejo de divisão. Pelo contrário, nós, mais do que ninguém, sabemos que “o cordão de três dobras não se quebra tão depressa” (Ec 4,12). E para aqueles que ainda desejam “cartas de recomendação”, é preciso dizer que o Espírito Santo e a igreja de Jesus são a nossa carta de recomendação. A decisão da OPBB, portanto, chega atrasada no timing de Deus, mas chega. Mas ela ainda pode inaugurar um tempo de reconhecimento e visibilidade institucional às muitas pastoras batistas brasileiras, pastoreando igrejas, e as muitas mais que virão. Nossos colegas podem nos ajudar a superar o tempo “duro”; afirmando com a serenidade paulina que o Senhor é deles e nosso.

sábado, 16 de abril de 2016

quando até o amor falha!


se eu não tivesse o amor
seria como sino ruidoso
ou como címbalo estridente. 1Co 13,1b
Há alguma coisa muito errada na terra chamada Brasil e, ao mesmo tempo, em terras evangélicas. Parece haver, nesse atual momento de nossa história,  uma sincronia -que nunca será confessada- entre a "massa" nacional e a "massa" evangélica.
De alguns anos para cá, as gentes dessas terras têm apresentado uma tal incivilidade que dispara os sinais de alerta daqueles que conseguem ver para além das aparências: perigo, perigo, perigo.  O cenário político atual, polarizado de uma forma doentia entre o correto e o inimigo, apresenta o espetáculo do absurdo. O maior absurdo tem sido descobrir que atitudes fascistas são cometidas com muita "dignidade" pelo cidadão comum.
Uma rápida passada pelas timelines das redes sociais, blogs e sítios comprovam como o cidadão "de bem" sabe odiar.  Muitas postagens destilando intolerâncias, purismos, xenofobismo, racismo, sexismo, fundamentalismos.
Até no meio de comunicação mais popular atualmente, o Whats app, somos sacudidos, a cada momento, por correntes espalhando boatos infundados, maledicências, terrorismo, inclusive, gospel, que convidam a repassar para outras pessoas as demonizações diárias da divergência real ou inventada.
Este fenômeno, que em breve será investigado a fundo pelas ciências humanas e sociais e deverá ganhar algum nome que organize racionalmente o que estamos vivendo, tem semelhanças com outros momentos da história brasileira e mundial que encaminharam os cidadãos "de bem" para uma  sensação de unidade, de homogeneidade branca, de direita, santa e fiel as doutrinas, guardiã da moral da família e do vizinho e que envia os cidadãos "do mal" para as fogueiras santas de toda ordem em nome de Deus.
Estão escutando os sinos ruidosos e os címbalos estridentes?
Pois então, eles estão ressoando em nossos arraiais, em nossas redes sociais, em nossos grupos identitários. O som é altíssimo, vindo às vezes de lugares/pessoas inesperadas, vindo das instituições, vindo de uma sociedade que anda se afirmando como capaz de excessos, vindo dos homens e mulheres de bem, vindo dos religiosos e religiosas, de gente simples, de lideranças muito e pouco escolarizadas, de gente pobre, gente rica, deputado e senador.
Andam fazendo muito barulho, ganhando adeptos, marchando...
Com tanta ressonância, é preciso voltar às coisas simples e básicas. Para os que são de Jesus, Batistas ou não, a necessidade é revisitar, quando na turbulência, o valor mais primordial da Revelação:
"ainda se eu tivesse toda fé...
ainda se eu fosse pio...
ainda se eu tivesse fé...
ainda se eu tivesse esperança...
se não tivesse amor, nada disso adiantaria."
Acertamos em muitas coisas como nação e como denominação, mas estamos falhando no amor. E se estamos falhando no amor, nem nossa fé, nem nossa piedade, nem nossa esperança adiantam. Quando nossa fé e esperança superam o amor, estamos falhando. Quando o amor é questionado como o mais alto valor pelos que têm fé e esperança, entendemos tudo errado.
"permanecem estas três coisas:
a fé, a esperança e o amor.
A maior delas, porém é o amor."
No cenário nacional, apoiar o impeachment da presidente eleita da República, no contexto gerador dos motivos, é o caminho da vitória da possibilidade prática do cerceamento da liberdade, do pensamento à esquerda, da vitalidade dos movimentos sociais em sua diversidade, das conquistas para os mais pobres, entre outras perdas.
Na denominação Batista, a exclusão sumária da divergência, o alinhamento do conservadorismo que demoniza e deseja impedir, rotular, alijar os que pensam e leem a Palavra por diferentes perspectivas, como se cada uma delas, inclusive a deles, não fossem fruto de um processamento histórico e de disputas hegemônicas, é o caminho da vitória da possibilidade prática do cerceamento da liberdade, do pensamento à esquerda, da fraternidade na diversidade, do livre exame das Escrituras, da superioridade da Palavra e dos princípios sobre a Tradição.
Talvez o que mais inquieta nesse momento é o grau de satisfação com que a nação e a denominação rechaçam, através de lentes sem amor, o que consideram ilegal. A nação não está amando, pois as características do amor são não buscar seus próprios interesses, não se alegrar com a injustiça, entender que tem apenas a compreensão parcial da realidade. O amor acredita, espera, suporta, perdoa. Então...
Se o cidadão não pensa como nós, ele não é o demônio.
Se nosso irmão não pensa como nós, ele não é o demônio.
Pois ainda que nós estejamos certos, se o que nos orienta não for o amor: a Deus, ao outro, falhamos. E quando até o amor falha...o que nos resta é continuar resistindo.


sexta-feira, 8 de abril de 2016

pequena bibliografia para início dos estudos sobre mulheres e religião, na Bíblia, Teologia e História


Vozes femininas nas religiões mundiaisLivro - Jesus - Libertador da Mulher

Casa, as Mulheres


BIBLIOGRAFIA BÁSICA

AQUINO, Maria P. A Teologia, a Igreja e a Mulher na América Latina. São Paulo: Paulinas, 1997.
BINGEMER. Maria C. L. O segredo feminino do Mistério: Ensaios de Teologia na ótica da mulher. Petrópolis: Vozes, 1991.
FIORENZA, Elisabeth S. As origens cristãs a partir da Mulher: Uma nova hermenêutica. São Paulo: Paulinas, 1992.
GEBARA, Ivone; BINGEMER. M. C. L. A mulher faz Teologia. Petrópolis: Vozes, 1986.
JOHNSON, Elizabeth A . Aquela que é: o mistério de Deus no trabalho teológico feminino. Petrópolis: Vozes, 1995 .
SOTER (Org.) Gênero e Teologia: Interpelações e Perspectivas. São Paulo: Paulinas & Loyola, 2003.

YOUNG, Pamela D. Teología Feminista – Teología Cristiana: en Búsqueda de un Método. México: Demac, 1993. COMPLEMENTAR AMORÓS, Celia (Dir.). 10 palabras clave sobre mujer. Estella (Navarra): Verbo Divino, 1995. 
http://www.theotrek.org/resources/Plampin/Licoes-sobre-Mulheres-Cristas/pastoras-nt-port/01-indice-pastoras.htm

não somos maiores que Jesus




Quando a mulher samaritana conversou com Jesus junto ao poço (Jo.4), uma série de situações inquietantes foram sendo gestadas. Inquietação, entre algumas possibilidades de definição,  é um "desassossego que impede o repouso". Para os primeiros ouvintes/leitores dessa narrativa, é possível imaginar o tamanho do desassossego. Séculos depois, o diálogo entre a mulher e Jesus ainda mantém sua força em inquietar nossa racionalidade, nosso coração e nossas interpretações religiosas.
O ministério de Jesus de Nazaré foi construído no caminho, nas suas itinerâncias até o fatídico dia em Jerusalém. A região da Galiléia recebeu o Mestre inúmeras vezes. No contexto de João 4, ele estava a caminho de lá, atravessando necessariamente a região da Samaria. Jesus estava cansado da viagem e sentia sede no calor do meio-dia. A mulher chega ao poço no calor do meio-dia. Os dois encontram-se, são colocados lado a lado necessariamente pelas circunstâncias. Humanidade e humanidade.
Esse primeiro momento do texto já tem muito a nos inquietar nesses tempos sombrios quando estamos desenvolvendo reais dificuldades para os encontros. Tempo cujo marco tem sido o estranhamento absoluto entre os sujeitos. Tempo em que nem mesmo a humanidade que nos contingencia a todos é elemento de reconhecimento mínimo, incapaz de suscitar desarmamento do espírito ou suspensão temporária da diferença.  
Ora, o Mestre não tinha pudores de nenhuma ordem. Não tinha melindres, nem zelo tal que impedisse a aproximação e relação com pessoas interditadas pela Lei e sua interpretação. Nem mesmo sua natureza divina era colocada em xeque pela aproximação do que poderia ser considerado impuro. Os centenários passam e nós vamos inflando nossa ortodoxia em detrimento dos encontros. Desenvolvemos pudores, melindres, zelo cego, cristalizações interpretativas da Lei e arrogante santidade. Nada disso nasceu conosco, fomos descobrindo e alimentando ao longo do caminho. Parece que nos preocupamos mais com as coisas santas do que o próprio Deus.
A samaritana se surpreendeu com a quebra do protocolo do judeu a sua frente. O que mais se tem feito ao longo da história das civilizações é construir mediações entre as pessoas. Quantas mediações deve haver entre as pessoas? Não deveria nos espantar quando alguém passa por cima de protocolos e mediações alheias, por mais aparentemente civilizadas ou tradicionais, para agir de forma a se aproximar do próximo que desconhece, a exemplo do agir de Jesus. E isso é inquietante hoje.
A resposta de Jesus a mulher merece atenção piedosa. É provocativa, desconcertante e misteriosa. Esses adjetivos cabem bem porque remetem a uma certa loucura, para nós, da parte de Deus. Afinal, quem conhece Deus? Quem pode conhecê-lo em todo o seu Ser? Nem os profetas que vieram antes de nós puderam conhecê-lo em toda a sua Glória. Mas, ao mesmo tempo, há algo a conhecer e prosseguir conhecendo a respeito Dele. Tudo isso só é possível por meio de Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus. Logo, parte do conhecimento é Mistério; outra parte, Jesus nos revela. Em parte conhecemos, em parte desconhecemos!
Podemos passar uma existência inteira sem conhecer a Jesus de fato. A condicional feita junto ao poço é desconcertante. Será que na caminhada conhecemos o dom de Deus mesmo? Será que o que julgamos conhecer não estaria na ordem do Mistério? Será que nós estamos de fato saciados pela água que jorra para a vida eterna? Quais seriam os sinais de nossa saciedade? A julgar pela caminhada de Jesus, os sinais são muito evidentes: amar, amar, amar, inclusive, os que não são nossos amigos, ou, ainda, os que para nós são samaritanos. Talvez seja esse o critério para balizar nossas aproximações: a rejeição dos afastamentos de qualquer ordem. E isso traz muita inquietação hoje!.