As opiniões deste blog não representam, necessariamente, o conjunto dos pastores batistas: homens ou mulheres.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

não somos maiores que Jesus




Quando a mulher samaritana conversou com Jesus junto ao poço (Jo.4), uma série de situações inquietantes foram sendo gestadas. Inquietação, entre algumas possibilidades de definição,  é um "desassossego que impede o repouso". Para os primeiros ouvintes/leitores dessa narrativa, é possível imaginar o tamanho do desassossego. Séculos depois, o diálogo entre a mulher e Jesus ainda mantém sua força em inquietar nossa racionalidade, nosso coração e nossas interpretações religiosas.
O ministério de Jesus de Nazaré foi construído no caminho, nas suas itinerâncias até o fatídico dia em Jerusalém. A região da Galiléia recebeu o Mestre inúmeras vezes. No contexto de João 4, ele estava a caminho de lá, atravessando necessariamente a região da Samaria. Jesus estava cansado da viagem e sentia sede no calor do meio-dia. A mulher chega ao poço no calor do meio-dia. Os dois encontram-se, são colocados lado a lado necessariamente pelas circunstâncias. Humanidade e humanidade.
Esse primeiro momento do texto já tem muito a nos inquietar nesses tempos sombrios quando estamos desenvolvendo reais dificuldades para os encontros. Tempo cujo marco tem sido o estranhamento absoluto entre os sujeitos. Tempo em que nem mesmo a humanidade que nos contingencia a todos é elemento de reconhecimento mínimo, incapaz de suscitar desarmamento do espírito ou suspensão temporária da diferença.  
Ora, o Mestre não tinha pudores de nenhuma ordem. Não tinha melindres, nem zelo tal que impedisse a aproximação e relação com pessoas interditadas pela Lei e sua interpretação. Nem mesmo sua natureza divina era colocada em xeque pela aproximação do que poderia ser considerado impuro. Os centenários passam e nós vamos inflando nossa ortodoxia em detrimento dos encontros. Desenvolvemos pudores, melindres, zelo cego, cristalizações interpretativas da Lei e arrogante santidade. Nada disso nasceu conosco, fomos descobrindo e alimentando ao longo do caminho. Parece que nos preocupamos mais com as coisas santas do que o próprio Deus.
A samaritana se surpreendeu com a quebra do protocolo do judeu a sua frente. O que mais se tem feito ao longo da história das civilizações é construir mediações entre as pessoas. Quantas mediações deve haver entre as pessoas? Não deveria nos espantar quando alguém passa por cima de protocolos e mediações alheias, por mais aparentemente civilizadas ou tradicionais, para agir de forma a se aproximar do próximo que desconhece, a exemplo do agir de Jesus. E isso é inquietante hoje.
A resposta de Jesus a mulher merece atenção piedosa. É provocativa, desconcertante e misteriosa. Esses adjetivos cabem bem porque remetem a uma certa loucura, para nós, da parte de Deus. Afinal, quem conhece Deus? Quem pode conhecê-lo em todo o seu Ser? Nem os profetas que vieram antes de nós puderam conhecê-lo em toda a sua Glória. Mas, ao mesmo tempo, há algo a conhecer e prosseguir conhecendo a respeito Dele. Tudo isso só é possível por meio de Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus. Logo, parte do conhecimento é Mistério; outra parte, Jesus nos revela. Em parte conhecemos, em parte desconhecemos!
Podemos passar uma existência inteira sem conhecer a Jesus de fato. A condicional feita junto ao poço é desconcertante. Será que na caminhada conhecemos o dom de Deus mesmo? Será que o que julgamos conhecer não estaria na ordem do Mistério? Será que nós estamos de fato saciados pela água que jorra para a vida eterna? Quais seriam os sinais de nossa saciedade? A julgar pela caminhada de Jesus, os sinais são muito evidentes: amar, amar, amar, inclusive, os que não são nossos amigos, ou, ainda, os que para nós são samaritanos. Talvez seja esse o critério para balizar nossas aproximações: a rejeição dos afastamentos de qualquer ordem. E isso traz muita inquietação hoje!.







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