As opiniões deste blog não representam, necessariamente, o conjunto dos pastores batistas: homens ou mulheres.

sábado, 6 de agosto de 2016

Um olho na história, outro na vida


A história das mulheres em ministério é tão antiga quanto a própria história do Cristianismo. Infelizmente, essa memória não foi preservada da forma como deveria e merecia a ponto de se constituir o pano de fundo inquestionável do exercício pleno dos diversos ministérios existentes na igreja cristã atual.
Pra. Zenilda Cintra
O silêncio histórico e, mais objetivamente, o apagamento na história operado pelos discursos hegemônicos e oficiais, é uma estratégia velha conhecida do poder patriarcal. Observando a cena Batista brasileira, é fácil constatar a eficiência dessa estratégia. Por exemplo, ainda hoje não está registrado nas mídias sociais da OPBB a possibilidade estatutária de haver no meio pastoral Batista da CBB, a presença de pastoras filiadas à Ordem. Assim como não está presente no discurso oficial nessas mídias a menção à existência de pastoras e quantas secções - na decisão esquizofrênica de deixar que cada secção decidisse o que a instância nacional, em tese, havia decidido - já votaram favoravelmente à filiação das pastoras que assim desejam. Seguindo o mesmo exemplo estratégico, a menção à presença de mulheres ordenadas nunca é explícita nos meios oficiais da denominação.

O problema desse silêncio institucional é favorecer os desgastes pessoais, os enfrentamentos e, a mais nociva das consequências, retardar o exercício de vocações dadas por Deus às mulheres e ratificadas pelas comunidades de fé em todos os cantos do Brasil.

Mas, há uma outra estratégia ainda mais historicamente eficiente quando tratamos das mudanças de toda ordem: no comportamento, política, cultura religiosa, etc. Como as pessoas portadoras ou representativas do poder institucional, constrangidas pelas mudanças fomentadas pelos sujeitos que as querem, rapidamente tentam reter em suas próprias mãos os processos históricos em curso. Em geral, tutelando esses sujeitos que operam simbólica e praticamente a mudança.
Pastoras Mabel, Norma, Adriana e Jandira

Obviamente, nem todos os sujeitos envolvidos na construção das mudanças cedem a essa estratégia. E, logo em seguida, são rotulados como resistentes, rebeldes, agitadores, ultrapassados, e qualquer outra pecha que cause temor. No caso do atual processo histórico de ordenação de mulheres aos ministério pastoral entre os Batistas, a pecha de feminista e liberal.
Pra Silvia Nogueira

Uma rápida análise sobre o poder dessa estratégia concluirá que a institucionalização canhestra é, na verdade, o realinhamento do poder nas mãos dos que sempre o tiveram e que, por um momento, ficaram sem o controle do processo e de seus resultados.

As mudanças na forma de conciliar candidatos ao ministério pastoral, o discurso de que a submissão a esses novos processos e caminhos apontados pela OPBB é a única forma de ser pastor(a) Batista em consonância com as expectativas da denominação, alinhado com o crescente questionamento da autonomia da igreja local e do absurdo argumento de ministérios exclusivamente locais são o atual discurso veiculado nos bastidores e nas instâncias decisórias.

O que aquece a discussão agora, não é mais quem discorda ou é a favor do ministério pastoral exercido por mulheres, mas sim, na mão de quem estará as próximas ordenações/consagrações. 

A última estratégia histórica é a de semear o sentimento de não-identificação entre os próprios sujeitos que constróem a mudança. Téa Frigerio, teóloga italiana, vai afirmar que "para se sustentar, o patriarcado precisa criar e alimentar a inimizade entre as mulheres."

Discussão antiga sobre o porquê das próprias mulheres terem tão pouca solidariedade entre si. Como essa cultura promove entre esses sujeitos femininos uma crescente insensibilidade aos seus pares que sofrem as mesmas adversidades e necessitam das mesmas conquistas de direitos e de legitimidade. É lamentável perceber a "facilidade" com que são comprados os discursos hegemônicos, como é fácil demonizar o outro que não cede - e nem vai ceder - a autonomia individual e a autonomia da igreja- e como vai se constituindo um léxico do que é permitido e outro, do que é proibido.

Faz parte da estratégia maior do patriarcado, consciente ou inconscientemente, não importa, dividir para governar. 

É bom perceber, no entanto, que a vida sempre dá um jeito de fugir ao controle. Nesse caso, a consagração de mulheres (assim como de homens) entre os Batistas brasileiros sempre será uma decisão das igrejas locais, assim como o trânsito ministerial. Se por um lado, há o silenciamento, a tentativa de tutela e a tentativa de dividir "por dentro"; por outro, há barulho, resistência e esforço de unidade.
pastoras Batistas no I Congresso Brasileiro de Pastoras Batistas e Vocacionadas