As opiniões deste blog não representam, necessariamente, o conjunto dos pastores batistas: homens ou mulheres.

sábado, 24 de junho de 2017

48 deslumbramentos

Uma cerca sem fim dividia as terras de minha infância. De um lado, por quilômetros, um verde infinito. De outro, pedras, água, casas rurais. As gentes simples pontuavam a paisagem. Aprendi sobre sutilezas quando me rendi à melancolia.

terça-feira, 20 de junho de 2017

48 deslumbramentos



As mãos agarradas ao encosto do último banco. Torciam sua borda. O coração batia tão forte e rápido que era possível ouví-lo dentro dos ouvidos. Olhava de um lado para o outro, ansiosa, exultante, um turbilhão. O momento não era aquele, ainda. Todos os olhares estavam sobre mim? Não, nenhum. Ou melhor, apenas um. O Um. A pergunta mal foi ouvida e, energicamente, a mão já estava no alto, acenando a confissão. O coração, aliviado. A salvação (em tudo o que esta palavra abriga) chegou aos 12. 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

48 deslumbramentos


Meu sorriso é uma fenda escavada no chão.
Quando eu choro é uma enchente surpreendendo o verão.
Quando eu amo devoro todo o meu coração.
Eu odeio, eu adoro, numa mesma oração. (Chico Buarque)

A noite se apresentava negra e familiar. A única luz emanava da tela da televisão preto e branco na sala. Quieta, em um canto no quarto sem porta, perdida em mim mesma, pensei de súbito: "quero ser grande!"

domingo, 18 de junho de 2017

48 deslumbramentos



A água da torneira do tanque de cimento caía vigorosamente dentro do balde. Um, dois, três, quantidades esquecidas. Minha mãe lavava todos os dias a grande calçada-quintal da casa da infância. Não ouvíamos música no rádio, então, o único som era o do trabalho. Eu, a mais nova, observava o movimento da limpeza da calçada. Ansiosa, esperava. Observava experimentando o cheiro do sabão sobre o cimento que me agradava, a sincronia de vassouras, baldes e rodos também me agradavam. 
Terminado o serviço,  minha mãe sumia casa adentro para outras tarefas. E eu, esperava o agir do sol. Esperava que ele me desse espaço entre o molhado e o seco. Quando finalmente distribuía-se apenas poças que secavam lentamente, eu sentava entre elas e desenhava a minha imaginação.

sábado, 17 de junho de 2017

48 deslumbramentos


No princípio, minha vida era sem forma e vazia. E dissemos (Deus, pais, outros humanos e eu mesma): Haja luz! E houve! Foi a tarde e a manhã, a vida primeira.  

domingo, 11 de junho de 2017

aprender a ser pastor, sem desaprender outras coisas

imagem da internet
"Ninguém nasce sabendo" já diz a sabedoria popular. Mas ao nascer, inauguramos nosso processo de aprendizagem sobre tudo, da linguagem aos comportamentos sociais. Para aqueles e aquelas que um dia compreenderam que suas vidas estavam também marcadas por uma vocação religiosa e pastoral, em particular, é fácil compreender que estamos aprendendo o tempo todo sobre ser isto que dizemos que somos.
Não é a imposição de mãos sobre nossas cabeças que determina a nossa prontidão para o ministério pastoral, esse ofício nobre de servir aos outros e, ao mesmo tempo, tão cheio de armadilhas e perigos. Não estamos prontos para os desafios diários de nossa tarefa comunitária. Estamos sempre aprendendo a ser. Se somos conscientes disso, aprendemos, e muito, com o tempo e as experiencias vividas por nós e por outros como nós. Inclusive, a corrigir o que pensamos sobre nós mesmos e o nosso valor no quadro geral dos filhos e filhas de Deus. 
Nem toda aprendizagem é boa. Algumas são dolorosas, especialmente as que estão impregnadas de desamor, como o abandono na velhice, o menosprezo dos colegas que se sentem superiores ou mais "bem-sucedidos", ou, ainda, os que lutam pela dignidade de suas vidas e de suas famílias e nem sempre conseguem alcançá-la no ministério. 
Contudo, há ainda uma quantidade significativa de pastores(as) que não lobotizam seus rebanhos nem fazem da fé um negócio; antes, pastoreiam com sinceridade de coração e misericórdia. Pastores(as) que entendem gradativamente sua frágil importância e, em contrapartida, a alta importância que tem cada pequenino e pequenina deste mundo. Estamos a caminho e não estamos sozinhos. Há, ainda, a calorosa sensação da companhia do Ressurreto entre nós, a presença de Jesus conosco que não nos permite perder (por muito tempo) a noção do que realmente importa.
Hoje, então, na celebração do dia do pastor e da pastora, afirmo que estamos todos aprendendo a ser pastor. Os que já se consideram prontos estão enganando a si mesmos e aos outros, penso eu. Mas também preciso afirmar que ao passo que aprendemos a ser pastores não devemos desaprender outras formas de ser e viver. 
Existem muitos de nós que estão confusos quanto ao caráter da própria vida que se mistura de forma indissociável à vocação abraçada. Somos também homens e mulheres, pais e mães, amantes, amigos e amigas, profissionais, filhos e filhas, irmãos e irmãs, cidadãos, sonhadores e sonhadoras, curiosos e curiosas, questionadores e questionadoras, pensadores e pensadoras, discípulos e discípulas, mestres, jovens e velhos.
Faz muito mal a nós, pastores, aprender a ser algo, esquecendo ou sacrificando outras facetas, igualmente legítimas e abençoadoras. Que não nos fechemos no gueto de nossa confissão religiosa, mas que continuemos também a aprender em todas as dimensões da vida. Feliz dia do pastor(a)!  

sexta-feira, 9 de junho de 2017

"O feminismo não deveria existir"

Slam Tawane Theodoro (2017)



Há algum tempo percebo, assim como muitos outros observadores do espírito do nosso tempo, a crescente ojeriza de uma gama variada da sociedade (nas categorias de classe, raça, gênero, idade, confissão religiosa, etc) em lidar com as questões que envolvem os feminismos e, inclusive, uma dificuldade em usar a palavra para se autodenominar ou referenciar o outro.

É como se "de repente" não fizesse mais nenhum sentido, inclusive histórico, para ainda lidarmos com a linguagem e o conteúdo dos feminismos. Uma outra palavra conquistou os corações e mentes, através das mídias sociais, como uma palavra-resumo e, ao mesmo tempo, uma palavra-intimidadora daqueles e daquelas que ainda gritam, vivem e pensam o mundo através desta pauta de gênero: a neopalavra MIMIMI.

Penso, ainda, que quem primeiro pensou neste neologismo acertou em cheio na descoberta de uma forma sintética de engavetar uma revolução em curso. Não precisou de hinos, nem decretos, nem nenhuma outra coisa que caracteriza as ações reacionárias, porque a submissão feminina é algo tão profundo, tão capilar, tão epidérmico que não é preciso muita elaboração discursiva para novamente cooptar corações e mentes em direção à negação da violenta distorção entre os sexos/gêneros da humanidade.

Então, a fé em Jesus de Nazaré e a teologia que organiza meu raciocínio concordam com essa linda menina e faz eco a sua poesia-denúncia. Muitas agendas me interessam e me mobilizam vorazmente, mas esta que sofro no meu corpo de mulher é, sem dúvida, a que mais está presente na minha vida e vocação.

A já secular reflexão sobre gênero admite atualmente muitas atualizações e revisões. A mais recente são os estudos Queer, por exemplo, mas existem ainda outras formas de abordar a questão dos gêneros. Esta reflexão, no entanto, cantada no meio da praça urbana de nossa cidade, no alvorecer do século XXI, ainda é a base incômoda de tudo.

Se pensarmos pela via da luta milenar contra a exploração/opressão de um indivíduo sobre o outro, ou de um sistema sócio-político-cultural-religioso-econômico sobre uma pessoa ou categoria social, as mulheres são as mais milenares oprimidas da história humana. Logo, explicito meu incômodo que vem se gestando há algum tempo na relação com meus muitos e queridos companheiros e companheiras de caminhada.

Por que estamos sendo abandonadas nesta discussão? Por que não percebemos que esta é uma discussão central e comunitária, já que as relações entre homens e mulheres nos espaços do privado e do público não são suspensas enquanto nos calamos ou tememos os rótulos ou ridicularizamos esta luta em particular.

Há uma certa celebração intelectual daqueles que podem promover uma "novidade" teórica ou de categorias de análise. É claro que o movimento da história nos interpela com outras formas de ser e estar no mundo e é preciso respostas que nos livrem de uma experiência atônita diante dele, mas; repito, mas, na questão das relações entre homens e mulheres no ambiente da experiência social judaico-cristã, nos movemos muito pouco. 

Testemunho uma série de histórias dos outros e minhas cuja intersecção é a de que muitas vezes não importa quanto de conhecimento alguém tem, nem as bandeiras solidárias que abraça, nem mesmo o discurso dialogal que tenha, suas relações amorosas ou com outras mulheres na condição de amigos, pais, irmãos de sangue e de comunidade de fé, têm a marca lodosa das diferenças biopolíticas de gênero.

Sinto, então, pelos colegas, teólogos e teólogas, pastores e pastoras que ainda celebram as vozes, em geral masculinas, que discutem questões de pertença, identidade evangélica, polarizações ideológicas; ou que estão festejando, nesse momento, de forma reativa, as questões da estreita relação entre fé e política, da presença/ausência dos corpos negros, dos pobres, dos cis, dos trans, como questões contemporâneas importantes e fundantes. Elas são, em certa medida. Mas, ao mesmo tempo, têm colocado no gueto ou da superação epistemológica ou da saturação reflexiva ou, ainda, de uma indisposição inconfessada ao tema, esta questão de base nas relações milenares entre homens e mulheres.

Esta violenta realidade literal e simbólica que a pactuação dos discursos (agora neoliberais) do patriarcado, do capitalismo e do conservadorismo engendram, fagocitam até os que se dizem progressistas.
Carxs, a "revolução" feminina em curso não se estabeleceu plenamente, então, não podemos superá-la.

Penso, inclusive, que quando isso acontecer, outros modelos relacionais, outras formas de convivência urbana, outras relações midiáticas, outras relações com o Capital, outras formas mais colaborativas de vivência no mundo poderão ser possíveis.


O Brasil, em particular, por conta do número assustador (e incompleto) de denúncias de violência de gênero e feminicídios, inclusive entre os evangélicos, solicita uma pastoral e uma teologia que ouça meninas como essa, mulheres como eu, brancas ou negras, pobres ou ricas, escolarizadas ou não, históricas ou neopentecostais, cristãs ou candonblecistas, de casa ou da rua, da vida ou da igreja, que vivem, com os dois pés no peito ou em silêncio, diariamente, a dúvida de ser para o outro uma coisa/propriedade ou um sujeito de forma substantiva.

E que também possa acrescer adjetivos e locuções adjetivas fundamentais para a noção de humanidade : sujeito de direitos, sujeito de si mesmo, sujeito de seus corpos, sujeitos políticos, sujeitos religiosos, sujeitos amorosos e todas as outras possibilidades de ser desejadas.